Telcos buscam receita além da conectividade para virar TechCos

Adriano Camargo- 3 de novembro de 2026 | 16:41
Brisanet, Claro e Giga+ apontam cloud, cibersegurança, IA e parcerias como caminhos para ampliar receitas fora do acesso tradicional.

A transformação de operadoras de telecomunicações em TechCos passa pela capacidade de ampliar receitas sobre ativos que já possuem (rede, base de clientes, dados e canais de relacionamento) e não apenas pela modernização tecnológica. A avaliação foi compartilhada por executivos de Brisanet, Claro e Giga+ durante o painel “From Telco to TechCo: o que realmente está mudando nas operadoras?”, realizado nesta segunda-feira, 3, no Roadshow Embrapii | TechCo Executive Forum, no CPQD.
Participaram da discussão Felipe Xavier, da Brisanet; Devanil Rueda, da Claro; e Clayton Carmo, da Giga+, com mediação de Alberto Boaventura, do CPQD.
Para Xavier, gerente executivo de DigitalCore da Brisanet, as operadoras continuam capturando uma parcela pequena do valor gerado pelos serviços que utilizam suas redes.
“Tudo está na minha rede, mas eu sou a pessoa que menos está ganhando com tudo isso”, afirmou.
Segundo ele, streaming, comércio eletrônico, hyperscalers e, mais recentemente, inteligência artificial aumentam a demanda por tráfego e processamento, enquanto a receita da telco continua concentrada no acesso.
Conectividade perde poder de diferenciação
A dificuldade de aumentar a receita apenas com banda larga aparece, segundo Xavier, na própria evolução dos planos comerciais.
O executivo citou um material da Brisanet de 2011 em que um plano de 12 Mbps custava aproximadamente R$ 80. “Só mudou que a gente está entregando mais megas, porque o valor continua o mesmo”, afirmou.
Na avaliação do executivo, a operadora precisa usar o conhecimento sobre o cliente para oferecer serviços capazes de resolver outros problemas, em vez de limitar a relação comercial ao fornecimento de conectividade.
Esse movimento abre espaço para soluções de pagamento, segurança digital e aplicações baseadas em dados.
Claro já fatura R$ 1,2 bilhão com soluções digitais
Na Claro, a estratégia de diversificação inclui startups, empresas de tecnologia, instituições de pesquisa e hyperscalers.
Devanil Rueda, responsável pelo grupo Innovation Venture da operadora, afirmou que a companhia vem adaptando processos internos para trabalhar com startups, inclusive criando caminhos de contratação distintos daqueles usados com grandes fornecedores.
Segundo ele, as soluções digitais já geram R$ 1,2 bilhão em receita para a Claro, embora o valor ainda tenha peso reduzido frente ao tamanho da operação tradicional.
“Soluções digitais hoje já fatura R$ 1,2 bi”, afirmou.
Entre os projetos citados está uma oferta desenvolvida com a Nvidia baseada em GPU como serviço.
“Nós compramos as GPUs e segmentamos e as vendemos como serviço”, disse.
Segundo Rueda, a proposta é permitir que o cliente utilize apenas parte da capacidade computacional disponível, reduzindo a necessidade de adquirir uma GPU inteira.
ISPs também ampliam portfólio
Clayton Carmo, diretor de negócios de atacado da Giga+, afirmou que provedores que ganharam escala precisam avançar para outros serviços digitais.
A empresa já atua em cloud e cibersegurança e vem ampliando o portfólio além do acesso à internet.
Carmo também relacionou essa transformação à expansão nacional da companhia. Segundo ele, a Giga+ está presente em 22 estados e opera sobre uma infraestrutura de mais de 150 mil quilômetros de fibra.
Para o executivo, a evolução depende tanto de novos serviços quanto de atualização permanente da rede, sobretudo diante do crescimento do processamento baseado em GPU e do tráfego associado à inteligência artificial.
Parcerias aceleram novos negócios
Os três executivos também destacaram que a transição para TechCo aumenta a importância das parcerias.
Na Giga+, Carmo afirmou que limitações de capital e de tempo tornam inviável desenvolver internamente todas as capacidades necessárias.
“Ninguém mais consegue sobreviver sozinho em um mercado desse tamanho, justamente por conta de limitações financeiras e de tempo”, disse.
Na Brisanet, Xavier fez avaliação semelhante ao abordar o custo do crédito e a necessidade de acelerar investimentos.
“É impossível a gente falar em uma escala de operação sem sem não ter parceiros”, afirmou.
IA não corrige processo ruim
A IA apareceu no painel tanto como ferramenta de eficiência quanto como base para novos produtos. Os participantes, porém, ressaltaram que a tecnologia não substitui mudanças organizacionais.
Rueda afirmou que a adoção depende de processos e equipes preparados.
“Se você colocar uma IA para fazerum1 processo que está ruim, não vai adiantar nada”, disse.
Xavier também alertou para o risco de usar IA sem organização operacional.
“Ela pode acelerar muita coisa, mas se não for bem organizada ela só vai acelerar o caos”, afirmou.
Para os executivos, a evolução para TechCo exige combinar a infraestrutura tradicional de telecomunicações com serviços digitais, conhecimento do cliente, inovação aberta e capacidade de execução em parceria.
Tags# cibersegurança# cloud# fibra óptica# gpu# ISP# nvidia# operadora

