ClickIP vê risco de bolha com obrigação de investir em data centers
Rafael Bucco
- 3 de novembro de 2026 | 13:03
Maykon Souza critica proposta de vincular infraestrutura regional a leilões de espectro e defende crédito para o setor.
O CEO da ClickIP, Maykon Souza, vê risco de formação de uma bolha de data centers regionais (“edge”) caso a Anatel vincule investimentos em infraestrutura regional a compromissos de aquisição de espectro. Em entrevista ao TV.Síntese que vai ao ar logo mais, às 19h, o executivo afirmou que a obrigação pode estimular a construção de instalações sem demanda correspondente.
“Isso vai criar uma bolha e a bolha vai estourar, e vai dar prejuízo para as empresas e prejuízo para o mercado”, afirmou, ao comentar a proposta.
Na avaliação de Souza, a demanda por processamento está concentrada nos grandes data centers, os chamados hyperscales, e sua distribuição para estruturas regionais depende das necessidades das empresas clientes. “Acredito que é errado porque a Anatel está querendo criar um mercado que ainda não existe”, declarou.
A posição parte de uma operadora que já investiu em um data center em Manaus. Segundo Souza, a ClickIP destinou R$ 21 milhões à infraestrutura e pouco mais de R$ 20 milhões à capacidade computacional. Inaugurada em 2024, a instalação surgiu da necessidade de melhorar a estrutura utilizada pela própria empresa para prestar serviços de conectividade.
Demanda interna sustenta ocupação
O executivo informou que cerca de oito racks estavam ocupados no momento da entrevista, com predominância do uso interno. A demanda de clientes externos, segundo ele, começa a chegar, com projetos voltados principalmente a empresas da Zona Franca de Manaus.
O projeto começou a ser concebido em 2020, e as obras tiveram início em 2021. Durante seu desenvolvimento, os sócios decidiram ampliar o investimento para transformar a infraestrutura em uma unidade de negócios que também atendesse terceiros.
Segundo Souza, a contratação do data center não exige que o cliente utilize os serviços de banda larga da ClickIP. A instalação já hospeda servidores de outras empresas e recebe operadoras em regime de colocation.
Viabilidade depende das aplicações
Para o executivo, a oportunidade para provedores regionais está na interiorização dos data centers, mas a existência de uma cidade sem essa infraestrutura não basta para justificar o investimento. É necessário avaliar a presença de empresas e de aplicações que demandem processamento próximo dos usuários.
“Boa parte das aplicações não dependem de baixa latência”, afirmou.
Souza defende um modelo no qual o processamento de uma mesma empresa seja distribuído entre sua estrutura interna, data centers regionais e grandes instalações de nuvem. A definição sobre onde executar cada aplicação, segundo ele, precisa ser construída com o cliente.
Nesse cenário, o próprio provedor pode funcionar como cliente âncora do empreendimento. Para Souza, o investimento faz sentido quando o uso interno sustenta o modelo de negócios, sem depender exclusivamente de uma expectativa de contratação futura por terceiros.
A disponibilidade de profissionais também foi apontada como obstáculo. Segundo o executivo, os fundadores precisaram aprender sobre a operação do setor, e a empresa continua capacitando sua equipe.
IA pode exigir outra infraestrutura
A ClickIP também avalia que uma eventual expansão para cargas mais intensivas de inteligência artificial exigiria uma estrutura específica. Souza explicou que o data center foi concebido antes dessa demanda e que os desafios envolvem dissipação de calor e balanceamento de carga.
Caso a demanda por IA avance para o processamento regional e exija refrigeração líquida, o executivo prevê a construção de um anexo no terreno da empresa. A possibilidade está condicionada à evolução desse mercado.
Na discussão sobre políticas de incentivo, Souza apontou o financiamento como uma forma de apoiar os investimentos. “O que o governo de modo geral pode ajudar é com linhas de crédito”, afirmou.
Tags# ClickIP

