AST projeta expansão no Brasil com rede D2D aberta a novas operadoras

Rafael Bucco
- 3 de novembro de 2026 | 20:15
Empresa vê espaço para MVNOs, governo e IoT em arquitetura que prevê quatro gateways no país e integração às redes dos parceiros.

A AST SpaceMobile pretende ampliar suas parcerias no Brasil com uma rede de conexão direta entre satélites e dispositivos, conhecida como D2D, que pode ser integrada a diferentes operadoras móveis. Além dos acordos anunciados com Brisanet, Unifique, Iez! Telecom e Amazonia 5G, a empresa vê espaço para atender operadoras móveis virtuais (MVNOs), aplicações de internet das coisas (IoT), comunicação com veículos e demandas governamentais. A proposta combina infraestrutura de transmissão compartilhada no espaço com controle das redes e dos clientes pelos parceiros em solo.
Em entrevista ao Tele.Síntese, Rodrigo Gebrim, responsável pela área regulatória da AST SpaceMobile na América Latina e no Caribe, explicou que a arquitetura permite incorporar novos operadores sem reunir a gestão de seus clientes em uma única rede. Para isso, os gateways — estações terrestres que se comunicam com os satélites — precisam estar interligados ao núcleo de rede de cada parceiro.
“A única coisa que é compartilhada é a infraestrutura de transmissão, mas toda a parte de controle de dados é tudo feito em solo”, afirmou. Segundo Gebrim, não há processamento de dados nos satélites.
O modelo descrito pelo executivo trata o satélite como uma extensão da rede móvel terrestre. O sinal parte do smartphone, chega ao satélite e desce para um gateway conectado ao núcleo da operadora. Cada parceiro mantém o controle de sua rede e de seus usuários, embora utilize a mesma infraestrutura espacial de transmissão.
Parcerias além das operadoras regionais
A possibilidade de integração não se limita às quatro empresas regionais com acordos anunciados no Brasil. Questionado sobre a abertura a outras operadoras, Gebrim afirmou que a arquitetura pode acomodar diferentes parceiros móveis, desde que haja a interligação entre seus núcleos de rede e os gateways da AST.
Como referência desse modelo, o executivo citou a joint venture com a Vodafone na Europa, chamada SATCO. Segundo ele, a plataforma europeia é aberta à adesão de outras operadoras.
Gebrim também afirmou haver espaço para MVNOs. A entrevista, porém, não trouxe novos acordos brasileiros nesse segmento nem detalhou as condições técnicas e comerciais para cada modalidade de operadora virtual.
A empresa pretende explorar outras aplicações além da extensão da cobertura dos celulares. Entre as possibilidades mencionadas estão IoT, comunicação direta com veículos e rastreamento de caminhões. A disponibilidade de espectro é um dos elementos que condicionam essas frentes.
Na telefonia móvel, a estratégia apresentada pelo executivo é atuar com parceiros terrestres locais. A AST não planeja, nesse segmento, vender o serviço diretamente ao consumidor. A oferta será incorporada à relação comercial que cada operadora mantém com seus assinantes.
Tráfego satelital encaminhado ao Brasil
Um dos diferenciais apontados por Gebrim é a decisão de não utilizar enlaces entre satélites. Na arquitetura descrita para o Brasil, a comunicação dos usuários será encaminhada do satélite para a infraestrutura terrestre instalada no próprio país, sem roteamento por outros satélites até uma estação no exterior.
A empresa apresenta essa escolha como uma forma de preservar a soberania dos dados. Segundo o executivo, o controle local também permite que as operadoras parceiras executem os procedimentos relacionados à interceptação legal, ao cumprimento de decisões judiciais e à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
“Todo o tráfego é controlado aqui”, afirmou Gebrim. A descrição se refere ao percurso da comunicação pela infraestrutura satelital e à sua entrega à rede da operadora brasileira.
Esse desenho exige que a infraestrutura terrestre esteja disponível antes do início da operação comercial. Sem gateway no Brasil, disse o executivo, a AST não consegue oferecer o serviço no país, nem mesmo em uma etapa comercial preliminar.
A empresa também vê nessa arquitetura uma possibilidade de atendimento ao governo. Gebrim afirmou que a AST tem planos de trabalhar com o setor público brasileiro, com comunicação criptografada de ponta a ponta e controle pelo cliente governamental. Não foram anunciados contratos brasileiros nessa frente durante a entrevista.
Quatro gateways e infraestrutura própria
O planejamento inicial prevê quatro gateways, distribuídos entre Norte, Nordeste, Sudeste e Sul. Segundo Gebrim, as estações ficarão próximas às regiões dos parceiros, mas não necessariamente nos mesmos locais em que essas operadoras concentram suas atividades.
O executivo afirmou que a importação dos equipamentos já está em andamento e que a empresa está iniciando a implantação. A conclusão depende da montagem da infraestrutura, de autorizações ambientais e da integração com as redes móveis.
A AST chegou a avaliar a contratação de infraestrutura terrestre de terceiros no Brasil, em um modelo de gateway como serviço, utilizado pela companhia em outros mercados. Segundo Gebrim, porém, não encontrou uma solução que atendesse à demanda planejada para o país como um todo.
A opção foi investir em infraestrutura própria. O executivo afirmou que o investimento inicial é feito majoritariamente pela AST, com participação dos parceiros regionais.
A escolha dos locais considera tanto a conectividade com os núcleos das operadoras quanto as condições climáticas. Os gateways utilizarão as bandas Q e V, frequências mais altas nas quais, conforme explicou Gebrim, a atenuação por chuva e outras condições atmosféricas precisam ser consideradas no planejamento.
A expectativa do executivo é que a empresa possa oferecer o serviço no Brasil em 2027. Ele não confirmou uma data de lançamento, que dependerá também da estratégia comercial de cada parceiro.
Banda S e 700 MHz em etapas diferentes
A estratégia de espectro combina frequências terrestres já utilizadas pelos celulares e espectro destinado à comunicação satelital.
Em comunicado, a AST informou ter obtido autorização da Anatel para utilizar 15+15 MHz na banda S, totalizando 30 MHz. A companhia também anunciou aprovação para uso secundário de até 10+10 MHz na faixa de 700 MHz, dentro das respectivas áreas licenciadas das quatro operadoras regionais parceiras.
Os acordos abrangem Brisanet, Unifique, Iez! Telecom e Amazonia. A disponibilidade das frequências terrestres permite à empresa planejar o atendimento com aparelhos que já operam em 700 MHz.
Segundo Gebrim, a intenção é utilizar inicialmente essa faixa para chegar aos usuários por meio das operadoras móveis. A banda S será incorporada como uma camada adicional de capacidade quando estiver disponível nos telefones.
O executivo explicou que a combinação busca responder à limitação do espectro terrestre que os parceiros podem disponibilizar para D2D, uma vez que essas frequências também são utilizadas em suas próprias redes.
A disponibilidade do serviço, conforme ressalva o comunicado da companhia, dependerá da implantação da capacidade espacial e terrestre, da integração das redes, da compatibilidade dos dispositivos, dos arranjos comerciais e das autorizações aplicáveis.
Antenas maiores e capacidade compartilhada
Gebrim também apontou o desenho dos satélites como uma característica da proposta. Segundo ele, a AST desenvolveu sua tecnologia especificamente para conexão direta com dispositivos, utilizando antenas maiores no espaço para viabilizar a comunicação com as antenas dos celulares convencionais.
Os novos satélites, afirmou, medem aproximadamente 15 por 15 metros quando abertos. O planejamento descrito pelo executivo prevê uma constelação de 90 satélites para cobertura global contínua.
Na entrevista, Gebrim informou que a empresa tinha 13 satélites lançados e quase 50 fabricados, em fase de testes anteriores ao lançamento. A ampliação da capacidade depende da continuidade desse cronograma.
O executivo relatou que um teste em águas internacionais com a primeira geração de satélites alcançou 98,9 Mbps de comunicação direta com um celular. Para a nova geração, a expectativa mencionada é chegar a velocidades próximas de 200 Mbps por célula de cobertura.
Essa capacidade, porém, é compartilhada pelos usuários presentes na célula. Não se trata de uma velocidade individual garantida. Gebrim explicou que, na banda S, cada célula tem aproximadamente 24 quilômetros de diâmetro e que os usuários simultâneos dividem os recursos disponíveis.
A empresa pretende direcionar essa capacidade principalmente para locais sem cobertura terrestre e para usuários em deslocamento. Segundo o executivo, o objetivo é complementar as redes móveis fora das áreas atendidas, incluindo trajetos entre cidades.
Cobrança dependerá dos parceiros
O modelo comercial brasileiro ainda dependerá das decisões das operadoras. Gebrim afirmou que, na maioria dos mercados em que a AST atua, a conexão satelital é oferecida como um adicional ao plano do usuário, com compartilhamento da receita entre as partes.
A entrevista não trouxe preços para o Brasil nem confirmou que todos os parceiros adotarão o mesmo formato de cobrança.
Na frente regulatória, Gebrim vinculou o projeto ao ambiente experimental da Anatel e afirmou esperar a publicação de regras definitivas para D2D. A migração desse ambiente para autorizações definitivas foi apresentada como expectativa da empresa.
Assim, a expansão pretendida reúne frentes em estágios distintos: quatro parcerias regionais anunciadas, infraestrutura terrestre em implantação e possibilidades de novos negócios com operadoras, MVNOs, aplicações de IoT e governo. O início comercial dependerá da conclusão das estações, da integração das redes e dos planos de oferta dos parceiros.
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