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TeleSíntese08/10/2026por Paula Coutinho

Rede elétrica precisa de R$ 7 bi em investimentos para atender demanda de data centers, diz EPE

Rede elétrica precisa de R$ 7 bi em investimentos para atender demanda de data centers, diz EPE
Rede elétrica precisa de R$ 7 bi em investimentos para atender demanda de data centers, diz EPE

Pedidos de conexão somam 20,7 GW, mas planejamento enfrenta risco de obras ociosas e aumento das tarifas caso investimentos não se concretizem

Os pedidos de conexão de data centers à rede elétrica brasileira já somam 20,7 GW e anteciparam em aproximadamente dez anos a demanda considerada no planejamento da transmissão de energia. Para atender essas grandes cargas, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) identificou a necessidade de mais de R$ 7 bilhões em investimentos em obras de transmissão. O desafio é decidir quando executar os reforços, uma vez que parte dos empreendimentos ainda depende de decisões de investimento.

Os números foram apresentados nesta quinta-feira, 8, por Daniel José Tavares de Sousa, consultor da EPE, durante o painel “Expansão na Era da IA: Decisões que Definem Bilhões em Investimentos”, realizado no Data Center World (DCW), dentro da Futurecom 2026, em São Paulo.

Segundo Daniel, o volume de solicitações representa uma mudança na escala do planejamento elétrico. Até então, os estudos consideravam principalmente o crescimento gradual do consumo das distribuidoras e da atividade econômica. Agora, grandes projetos de data centers concentram demandas de energia que podem exigir reforços de transmissão antes mesmo da confirmação de todos os investimentos privados.

“Esse movimento praticamente traz uma antecipação dessa visão de carga de cerca de dez anos”, afirmou.

São Paulo concentra 45% dos pedidos de conexão

Dos 20,7 GW solicitados para conexão à rede, aproximadamente 9,3 GW estão no estado de São Paulo, o equivalente a 45% do total. O Rio de Janeiro aparece com projetos que somam cerca de 4,3 GW, enquanto o Ceará também registra procura por grandes empreendimentos, associada à infraestrutura de conectividade disponível no estado.

Em São Paulo, a EPE identificou concentração de solicitações nas regiões metropolitanas da capital e de Campinas. Daniel explicou que a localização dos projetos acompanha a disponibilidade de redes de fibra óptica, mas nem sempre coincide com a capacidade da infraestrutura elétrica para receber novas cargas.

A dimensão dos pedidos ajuda a explicar a pressão sobre o planejamento. Segundo o consultor, os 20,7 GW representam aproximadamente uma vez e meia a carga de toda a região Nordeste.

Ele ressaltou, contudo, que os números correspondem a solicitações de acesso ao sistema elétrico, e não a empreendimentos necessariamente contratados, construídos ou em operação.

Transmissão leva sete anos, enquanto data centers podem ficar prontos em dois

O principal problema apresentado pela EPE está na diferença entre os cronogramas de implantação.

Um grande data center pode começar a operar em dois ou três anos. Já uma obra de transmissão exige pelo menos cinco anos de execução, considerando a complexidade de linhas, subestações e processos de licenciamento. Quando são incluídos os estudos e o planejamento, o intervalo entre a decisão de expansão e a entrada em operação da infraestrutura pode alcançar sete anos.

“Enquanto isso, os data centers estão entrando”, observou Daniel.

Essa diferença obriga a EPE a trabalhar com estudos prospectivos, antecipando decisões de planejamento com base em informações sobre projetos que ainda não tiveram sua execução confirmada.

O consultor explicou que a empresa mantém interlocução com grandes operadores de data centers para identificar os locais de maior procura e avaliar a probabilidade de concretização dos empreendimentos.

Investimento antecipado pode encarecer tarifa

A antecipação das obras cria um dilema para o planejamento elétrico.

Se a expansão da transmissão considerar uma demanda muito elevada e parte dos data centers não for construída, o sistema poderá ficar com capacidade ociosa. Como as instalações de transmissão são remuneradas pela disponibilidade, e não pelo volume efetivamente utilizado, os consumidores continuarão pagando pelos ativos.

“O sistema ocioso significa tarifa mais cara”, afirmou Daniel.

Por outro lado, um planejamento conservador pode produzir o problema inverso. Caso a demanda se concretize em volume superior ao previsto, a infraestrutura de transmissão poderá se tornar um obstáculo à instalação dos empreendimentos.

Segundo o consultor, essa possibilidade também comprometeria investimentos privados que dependem de conexão elétrica para entrar em operação.

A EPE procura equilibrar os dois riscos com informações sobre localização, cronograma e características dos projetos. Daniel destacou que a qualidade dos dados fornecidos pelos investidores é determinante para as decisões sobre expansão da rede.

Ele também observou que a proximidade de uma fonte de geração renovável não garante, isoladamente, melhores condições de atendimento. Como o sistema elétrico brasileiro é interligado e parte da geração renovável é intermitente, o planejamento precisa considerar o comportamento da rede e a disponibilidade de suprimento em diferentes períodos.

A discussão foi conduzida por Regina Magalhães, integrante do Comitê de Sustentabilidade do IBGC, que também chamou atenção para os impactos territoriais dos empreendimentos e para as preocupações das comunidades com o consumo de energia e água.

Regina destacou que as decisões de investimento precisam considerar a eficiência operacional, as condições das regiões que receberão os projetos e a disputa por recursos energéticos com outras atividades econômicas.

EVEO aponta prazos de equipamentos e falta de profissionais

Além da transmissão de energia, a disponibilidade de equipamentos e de mão de obra especializada interfere no cronograma dos investimentos.

Lucas Montarroios, diretor de Engenharia da EVEO, afirmou que o crescimento da demanda por infraestrutura de inteligência artificial tem pressionado a cadeia de fornecimento de componentes, especialmente GPUs e memórias.

Segundo ele, determinados equipamentos apresentam prazos de entrega que variam de seis meses a um ano. O problema ocorre porque, após a aprovação de um projeto, o cliente frequentemente espera disponibilidade imediata da capacidade contratada.

Montarroios afirmou que as empresas precisam antecipar decisões de compra e organizar o fornecimento de equipamentos para reduzir o risco de atrasos.

“Quem comprar melhor vai sair na frente”, resumiu.

O executivo também destacou a necessidade de formação de profissionais especializados em engenharia elétrica, civil e operação de data centers. Na avaliação apresentada no painel, a oferta de mão de obra não acompanha necessariamente o ritmo de expansão dos projetos.

Ele diferenciou ainda a capacidade brasileira de geração de energia das condições para entregá-la aos empreendimentos, apontando a transmissão como uma das principais dificuldades.

Anatel inclui segurança e sustentabilidade nas decisões

Ana Beatriz Sousa, superintendente executiva adjunta da Anatel, acrescentou ao debate os requisitos regulatórios relacionados à segurança cibernética, à proteção das instalações e à sustentabilidade.

Segundo ela, a agência acompanha especialmente os data centers interconectados à infraestrutura de telecomunicações, devido aos riscos que eventuais falhas podem representar para a continuidade dos serviços.

A representante da Anatel afirmou que o crescimento dessas instalações exige atenção aos riscos sistêmicos e mencionou discussões regulatórias sobre a integração dos data centers ao ecossistema de infraestrutura crítica.

Ana Beatriz também destacou o selo voluntário de sustentabilidade aprovado pela agência em 2026, iniciativa que considera critérios relacionados a energia, emissões de carbono, equipamentos e transparência em diferentes segmentos da cadeia de conectividade.

Para a superintendente, a atuação regulatória deve estabelecer critérios claros e transparentes, construídos em diálogo com a sociedade, de modo a permitir coordenação entre os agentes envolvidos nos investimentos.

Continuidade dos serviços também pesa na avaliação

Rodrigo Ventura, fundador e CEO da 88i Seguradora Digital, abordou o impacto econômico das falhas de infraestrutura sobre empresas que dependem de serviços digitais em tempo real.

A seguradora atua com produtos integrados a plataformas de mobilidade, logística, comércio eletrônico e aplicativos. Segundo Ventura, para o consumidor, uma falha em data center não aparece como um problema técnico isolado, mas como interrupção do serviço contratado.

“Meu cliente, se tem um problema no data center, ele não vai falar que houve uma falha de infraestrutura. Ele vai falar: a empresa não funciona, o negócio não funciona”, afirmou.

O executivo relacionou a expansão dos data centers à necessidade de avaliar riscos de indisponibilidade, incidentes cibernéticos e perdas financeiras.

Tags# data centers
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