MCom: Brasil precisa ampliar competências digitais para transformar acesso à internet em oportunidades

Paula Coutinho- 8 de outubro de 2026 | 18:37
Ministério das Comunicações prepara plano de inclusão digital; 65% dos brasileiros não possuem habilidades básicas, segundo dado citado no debate
Embora a infraestrutura de telecomunicações tenha avançado, 65% dos brasileiros não possuem as competências digitais consideradas básicas ou apresentam conhecimentos insuficientes para utilizar a internet de forma produtiva e segura, segundo dados do Cetic.br apresentados pelo Ministério das Comunicações.

O diagnóstico foi discutido no painel “Inclusão Digital: Letramento Digital e Acessibilidade Tecnológica”, realizado durante a Futurecom 2026, em São Paulo, nesta quinta-feira, 8. O debate reuniu representantes do governo, de organismos internacionais e de organizações envolvidas na implantação de infraestrutura e na formação digital.
Juliano Stanzani, representante do Ministério das Comunicações (MCom), afirmou que a disponibilidade de redes não garante, isoladamente, os benefícios econômicos e sociais associados à digitalização. Segundo ele, é necessário desenvolver as habilidades que permitam à população utilizar os serviços digitais com segurança, autonomia e finalidade produtiva.
Para enfrentar esse problema, o governo está concluindo a avaliação das contribuições recebidas para o Plano Nacional de Inclusão Digital. A proposta foi elaborada a partir de discussões com aproximadamente 40 instituições, entre órgãos públicos e representantes da sociedade civil.
O plano contempla medidas de democratização do acesso, ampliação da infraestrutura e desenvolvimento de competências digitais. Também identifica custos, possíveis fontes de financiamento e a necessidade de recursos complementares para executar as ações propostas.
MCom propõe programa de capacitação e uso do Fust nas escolas
Uma das medidas em preparação é um programa piloto de competências digitais, que deverá permitir ao governo avaliar metodologias de ensino e iniciativas já existentes no país.
Stanzani explicou que o ministério pretende identificar conteúdos mínimos, formas de capacitação e estratégias para alcançar diferentes grupos populacionais, incluindo idosos, indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência.
O representante do MCom também mencionou a intenção de estabelecer parcerias com instituições do Sistema S, para incorporar módulos de competências digitais aos cursos de formação profissional. A proposta contempla conteúdos básicos e intermediários, conforme as características de cada curso.
Outra frente é a ampliação do acesso a equipamentos nas escolas públicas.
O ministério propõe utilizar recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) para alcançar a proporção de pelo menos um computador para cada dez estudantes em todas as escolas públicas, no prazo de cinco anos.
A medida procura complementar os investimentos realizados na conectividade das unidades de ensino.
Stanzani afirmou que o governo também trabalha com o Ministério da Educação na construção de indicadores para acompanhar a implementação da educação digital nos sistemas públicos de ensino e avaliar o aprendizado dos estudantes.
A proposta vai além da contabilização de escolas conectadas: pretende verificar se os alunos estão adquirindo as competências previstas nos currículos.
Apenas 38% das escolas têm computadores em quantidade adequada
Liana Figueiredo, diretora de Relações Governamentais e Conectividade da MegaEdu, apresentou dados que mostram a diferença entre a disponibilidade de internet e as condições para seu uso pedagógico.
Segundo ela, a proporção de escolas públicas com conectividade adequada passou de aproximadamente 45%, em 2023, para cerca de 80% em 2026. O indicador considera não apenas a existência de acesso à internet, mas também velocidade compatível com a demanda e cobertura Wi-Fi nos ambientes escolares.
Apesar desse avanço, apenas 38% das escolas possuem computadores na proporção considerada adequada de um equipamento para cada dez estudantes.
Liana explicou que essa quantidade permitiria, aproximadamente, duas horas semanais de uso por aluno.
Na avaliação da MegaEdu, a aquisição de dispositivos será uma das principais prioridades da próxima etapa da política de inclusão digital nas escolas.
A organização também defende investimentos em sistemas de gestão educacional e na infraestrutura de dados da educação, para permitir que professores, gestores e famílias acompanhem a trajetória dos estudantes.
Segundo Liana, o uso dessas informações poderá apoiar o planejamento, a implementação e o monitoramento das políticas educacionais.
MegaEdu estima R$ 400 milhões para concluir conectividade escolar
A MegaEdu apresentou ainda uma estimativa de recursos necessários para concluir a universalização da conectividade adequada nas escolas públicas.
Segundo Liana, aproximadamente R$ 6,5 bilhões foram investidos nessa agenda desde 2023, considerando diferentes fontes de financiamento, incluindo recursos relacionados ao leilão do 5G, ao Fust e ao orçamento federal.
A organização calcula que serão necessários cerca de R$ 400 milhões adicionais para atender as escolas que permanecerem fora dos projetos já financiados.
A estimativa foi apresentada durante o painel, mas o estudo que fundamenta o cálculo ainda não havia sido divulgado pela entidade.
Liana alertou para o risco de a política pública perder prioridade antes de alcançar todas as unidades de ensino.
Outro ponto levantado foi a continuidade dos serviços depois do período inicial de financiamento. Segundo ela, projetos de conectividade contemplam contratos com duração de 24 meses, o que exige definir como será custeada a manutenção da internet e da infraestrutura interna após esse prazo.
A representante da MegaEdu defendeu uma divisão clara de responsabilidades entre União, estados e municípios, para evitar que escolas conectadas deixem de receber o serviço por falta de recursos.
EACE supera 31 mil escolas conectadas e prepara nova etapa
Flávio Ferreira dos Santos, CEO da Entidade Administradora da Conectividade de Escolas (EACE), apresentou os resultados da execução dos compromissos relacionados ao leilão do 5G.
Segundo ele, a entidade ultrapassou 31 mil escolas conectadas até o final de setembro, com atuação em mais de 3,6 mil municípios e atendimento a mais de quatro milhões de estudantes.
A EACE alcançou um ritmo de aproximadamente 100 escolas conectadas por dia útil, em parceria com provedores e integradores de telecomunicações.
O programa começou com um projeto-piloto em dez municípios, distribuídos pelas cinco regiões brasileiras, para testar soluções em localidades com diferentes características geográficas.
Flávio afirmou que o trabalho incluiu escolas indígenas, ribeirinhas, quilombolas e unidades situadas em regiões sem infraestrutura convencional de telecomunicações ou fornecimento regular de energia elétrica.
Para atender essas localidades, a EACE instalou mais de 1,6 mil sistemas de geração fotovoltaica.
O executivo informou que as 40 mil escolas previstas na etapa inicial já estão contratadas e que a entidade recebeu a atribuição de conectar outras 5,7 mil unidades até meados de 2027.
A seleção de fornecedores para essa nova etapa estava em andamento no momento do painel.
Os projetos são financiados com recursos vinculados aos compromissos do leilão do 5G, que destinaram R$ 3,1 bilhões à conectividade escolar.
Flávio ressaltou que a instalação da internet é uma condição necessária, mas insuficiente para a inclusão digital.
A infraestrutura precisa alcançar salas de aula e laboratórios, enquanto estudantes e professores necessitam de dispositivos e formação para utilizar os recursos disponíveis.
UIT defende políticas adaptadas às comunidades
Ana Veneroso, coordenadora de programa e líder regional de inclusão digital para as Américas da União Internacional de Telecomunicações (UIT), destacou que a existência de cobertura móvel não significa utilização efetiva da internet.
Segundo os dados apresentados por ela, aproximadamente 96% da população mundial vive em áreas com cobertura de rede móvel, mas uma parcela expressiva das pessoas atendidas por essa infraestrutura não utiliza os serviços digitais.
Ana explicou que a diferença entre cobertura e uso pode estar relacionada ao custo dos dispositivos, à falta de habilidades digitais, à ausência de conteúdos relevantes e a dificuldades de acessibilidade.
Na avaliação da UIT, as políticas públicas precisam identificar as causas específicas da exclusão em cada território, em vez de aplicar uma solução uniforme a populações com necessidades distintas.
A representante citou um projeto desenvolvido na região do Gran Chaco, entre Argentina, Bolívia e Paraguai, para exemplificar os obstáculos encontrados em comunidades remotas.
Além das dificuldades geográficas, as equipes identificaram barreiras linguísticas, ausência de energia elétrica e falta de pessoas capacitadas para ensinar o uso das tecnologias.
“Uma coisa é conectar, a outra é gerar autonomia tecnológica”, afirmou.
Ana defendeu a participação das comunidades locais na definição dos projetos, para que a tecnologia possa ser utilizada em atividades relevantes para a população, como acesso a serviços públicos, operações bancárias e comercialização de produtos.
Ela também mencionou uma iniciativa de capacitação digital voltada a meninas e mulheres no Brasil, com atividades previstas inicialmente em Mossoró, no Rio Grande do Norte, em articulação com instituições locais.
Infraestrutura na Amazônia precisa gerar resultados sociais
Geraldo Segatto, diretor de Operações da Entidade Administradora da Faixa (EAF), abordou os desafios da expansão da infraestrutura digital em regiões remotas, especialmente na Amazônia.
O executivo tratou do Norte Conectado e das dificuldades técnicas e logísticas associadas à implantação de redes de fibra óptica na região.
O debate destacou que a chegada da conectividade a comunidades isoladas precisa ser acompanhada por serviços e aplicações capazes de produzir benefícios concretos nas áreas de educação, saúde e atividades econômicas.
Inclusão deve ser medida por resultados até 2030
Ao final do painel, os participantes foram questionados sobre quais resultados o Brasil deveria alcançar até 2030 para demonstrar avanços efetivos na inclusão digital.
Ana Veneroso defendeu que os indicadores ultrapassem o número de pessoas conectadas e permitam avaliar os efeitos das tecnologias sobre a inclusão social e a mobilidade econômica.
Juliano Stanzani relacionou o desenvolvimento das competências digitais à ampliação das oportunidades de trabalho e à participação da população na economia digital.
Flávio Ferreira dos Santos destacou a necessidade de acompanhar os resultados educacionais, especialmente nas regiões remotas, onde as dificuldades de acesso à infraestrutura e aos serviços públicos são maiores.
Liana Figueiredo ressaltou que o avanço depende da atuação conjunta do governo, das empresas e das organizações da sociedade civil, além de políticas capazes de oferecer oportunidades educacionais equivalentes aos estudantes das diferentes regiões.
O painel foi conduzido por Jessaias Arruda, vice-presidente da Abranet, que sintetizou o desafio ao encerrar a discussão:
“Estar conectado não significa necessariamente estar incluído digitalmente.”
Para os participantes, a próxima etapa da inclusão digital brasileira deverá ser avaliada não apenas pela quantidade de redes, escolas ou domicílios conectados, mas também pela capacidade da população de utilizar a tecnologia para aprender, trabalhar, acessar serviços e ampliar suas oportunidades.


