Mais que velocidade, 6G terá IA, sensores e computação quântica

A evolução para o 6G representa uma mudança de paradigma para as redes móveis, que deixarão de ser pensadas apenas como infraestrutura de conectividade para assumir funções de processamento, sensoreamento e integração entre os mundos físico e digital. Essa foi uma das principais conclusões do painel “Preparação para o 6G e suas promessas: AI, IoT massiva, computação quântica”, realizado nesta quarta-feira (7/10), no Futurecom 2026.
Apesar de o Brasil ainda estar ampliando a utilização do 5G, os especialistas defenderam que a preparação para a próxima geração de redes precisa começar desde já. O 6G deverá incorporar inteligência artificial (IA) de forma nativa, ampliar significativamente a internet das coisas (IoT), integrar redes terrestres e não terrestres e criar condições para o uso de computação quântica.
Jesaias Arruda, vice-presidente da Abranet, destacou que discutir 6G em um mercado que ainda debate a consolidação do 5G exige uma mudança de perspectiva. Para ele, a próxima geração não deve ser encarada simplesmente como uma evolução em velocidade. “Não estamos falando de ganho de velocidade, mas de mudança de pensamento. Com 6G partimos para um conceito de redes com IA nativa”, afirmou.
A avaliação é compartilhada por Carlos Nazareth Marins, diretor do Inatel, para quem o 6G será caracterizado pela integração entre redes móveis, inteligência artificial e computação em nuvem em larga escala. A velocidade continuará sendo importante, mas como meio para viabilizar uma infraestrutura muito mais integrada. “Imaginar o 6G sem simultaneidade entre o mundo físico e digital é impossível. É preciso que a nuvem dê respostas muito rápidas”, afirmou.
O executivo explica que uma das diferenças importantes em relação às gerações anteriores será a tridimensionalidade da rede. Além das redes terrestres tradicionais, o 6G deverá incorporar as chamadas redes não terrestres (NTNs), com estações rádio-base embarcadas em satélites. A infraestrutura poderá ainda contemplar diferentes ambientes, incluindo estruturas subterrâneas em grandes cidades, como redes associadas a metrôs.
Na visão da GSMA, entidade que representa o ecossistema móvel global, a indústria ainda está construindo a ponte entre o 5G e o 6G. Alejandro Adamowicz, diretor de Estratégia e Tecnologia da GSMA, explicou que o 5G está entrando em uma segunda etapa de evolução, marcada principalmente pelo 5G Advanced e pela ampliação do uso da infraestrutura em aplicações industriais. “O 5G está atravessando um momento-chave, que é o início de sua segunda era, da evolução com maior velocidade e do aproveitamento de sua infraestrutura para aplicações industriais”, disse.
Nesse processo, o 5G Standalone (SA) tem papel relevante. Segundo Adamowicz, o Brasil possui uma vantagem por já contar com grandes operadoras trabalhando com essa arquitetura. A evolução para o 5G Advanced deverá ampliar recursos de conectividade, reduzir latências, aumentar a densidade de dispositivos por site e promover maior integração entre diferentes capacidades da rede.
Ao mesmo tempo, a padronização do 6G avança internacionalmente. De acordo com o executivo, as primeiras especificações técnicas estão completas e a primeira revisão técnica deverá ocorrer até a metade de 2028. A partir dessa etapa, fornecedores poderão avançar na produção de equipamentos voltados ao mercado.
IA passa a fazer parte da rede
Se no 5G a inteligência artificial já é utilizada em aplicações específicas, como configuração e gerenciamento de rádios adaptáveis, no 6G ela deverá estar incorporada à própria arquitetura da rede. Na prática, isso significa que decisões sobre funcionamento, gerenciamento e oferta de serviços poderão ser tomadas em tempo real. “Na rede 6G é completamente diferente. Ela já vem com IA embarcada para que todas as decisões da rede sejam processadas em tempo real”, explicou Nazareth.
Essa arquitetura exigirá integração nativa entre redes e data centers, além de maior capacidade de processamento e baixíssima latência. A IA deixará de ser apenas uma ferramenta complementar e passará a fazer parte da estrutura de gerenciamento da rede e da implementação de serviços. Outro componente será o sensoreamento. Segundo Adamowicz, o 6G deverá ser capaz não apenas de transmitir informações sobre objetos, mas também de utilizar a própria rede para identificá-los e acompanhar seu comportamento.
Entre os potenciais casos de uso estão o rastreamento avançado de objetos, veículos e materiais críticos, com possibilidade de reduzir acidentes e perdas de estoque. Também aparecem aplicações envolvendo drones, como entregas automatizadas, gestão de tráfego, segurança e confirmação de recebimento. Adamowicz, porém, pondera que esses cenários ainda dependem da consolidação dos padrões técnicos.
Novas estratégias
A expansão da IoT será outro componente fundamental do 6G. Nazareth avalia que o mercado ainda está longe de explorar todo o potencial de sensores conectados, especialmente em setores como agronegócio, indústria e mineração. “É possível que nos próximos anos tenhamos um veículo com 250 pontos de sensoreamento em operação ou uma máquina agrícola com 500 pontos de sensoreamento em operação”, projetou.
A combinação entre sensores, conectividade e processamento deverá criar uma infraestrutura capaz de coletar e interpretar grandes volumes de informações sobre o ambiente. Para o executivo, essa pode ser uma das maiores rupturas provocadas pelo 6G: a própria rede passará a atuar como elemento sensor.
O desafio brasileiro, entretanto, está também na viabilidade econômica dessas redes em regiões de baixa densidade. Grande parte da infraestrutura móvel é planejada para áreas com alta concentração de usuários, enquanto aplicações industriais, agrícolas e de mineração podem estar localizadas em regiões mais dispersas. Nazareth defende, nesse contexto, maior flexibilidade na utilização do espectro radioelétrico, inclusive com mecanismos de uso oportunístico. Um dos exemplos citados é o TV White Space, que permite aproveitar espaços não utilizados em determinadas faixas destinadas à televisão.
“Se você tem eletrônica e processamento que permitem fazer isso com menor custo, a tendência é que esse uso se estenda para outras faixas de frequência, usando espaços em branco do espectro”, explicou.
Computação quântica
A computação quântica também deverá fazer parte da preparação para o 6G, tanto pela necessidade de proteger as futuras redes contra novos riscos de segurança quanto pelo potencial de ampliar a capacidade de processamento. Erik Garcell, da Quantum Solutions – Classiq, aponta duas frentes principais. A primeira é a segurança, diante da possibilidade de computadores quânticos quebrarem mecanismos de criptografia utilizados atualmente. A segunda envolve aplicações que dependem de cálculos extremamente complexos, como simulações de ondas e problemas de otimização.
“As redes 6G devem ser desenvolvidas com uso de computação quântica em suas redes”, afirmou, lembrando que isso também cria uma demanda urgente por profissionais especializados. “Precisamos desenvolver currículos e habilidades da força de trabalho, e isso inclui universidades e corporações”, disse. O desafio não será apenas formar especialistas, mas entender em quais situações a computação quântica realmente oferece vantagem.
Nos próximos cinco anos, portanto, a preparação para o 6G envolverá mais do que pesquisa tecnológica. Será necessário avançar em padrões, espectro, infraestrutura, formação profissional e protocolos de comunicação quântica. Adamowicz ressalta que a padronização será fundamental para garantir escala global. “O espectro será o principal alimento da indústria móvel, por isso a disponibilização de faixas é essencial. A padronização é chave para a geração de escala e precisamos que todos os países conversem sobre isso”, afirmou.

