ISPs entram em novo ciclo de consolidação

Adriano Camargo- 7 de outubro de 2026 | 16:50
Capital mais caro aumenta a seletividade dos compradores, enquanto rede, governança e escala ganham peso nas aquisições.

O mercado brasileiro de provedores regionais entrou em uma nova etapa de consolidação, marcada por juros elevados, maior competição e critérios mais rigorosos para fusões e aquisições. A avaliação foi apresentada nesta quarta-feira, 7, durante painel da Futurecom 2026 sobre o futuro dos ISPs e as perspectivas para M&A no setor.
O debate reuniu Denis Marcel Ferreira, da Alares Internet, José Borges, da Anatel, Rodrigo Schuch, presidente da Associação Neo, e teve mediação de José Felipe Ruppenthal, da Telco Advisors.
Ferreira afirmou que a necessidade de escala continua empurrando empresas para a consolidação. “O mercado exige a consolidação, vamos dizer assim, não é porque você precisa continuar tendo eficiência, você precisa continuar criando escala”, disse. Segundo ele, o movimento “vai continuar acontecendo e, possivelmente aconteça com uma velocidade maior do que estava acontecendo antes”.
O custo do capital é um dos fatores de pressão. “A gente está há muito tempo com uma taxa de juros bastante alta, em um setor de de intensidade de capital que é muito grande”, afirmou.
Novos consolidadores aparecem
Segundo Ferreira, voltaram a surgir provedores com mais de 100 mil assinantes que passaram a comprar operações menores, movimento que não era observado com a mesma intensidade há alguns anos.
“Recentemente nós estamos vendo que essa realidade mudou de novo, que estão surgindo outras empresas de mais de 100 mil assinantes, que estão consolidando de forma muito mais rápida os pequenos”, afirmou.
O executivo também citou a compra da Desktop pela Claro como sinal de que o movimento de consolidação pode avançar entre empresas de maior porte.
Rede e governança pesam mais
A escolha de ativos ficou mais seletiva. Ferreira afirmou que a Alares considera três dimensões principais antes de avançar sobre uma aquisição: potencial do mercado, qualidade da rede e governança, incluindo aspectos culturais.
“Você tem que avaliar se a rede desse ativo é uma boa rede”, afirmou. Segundo ele, uma infraestrutura problemática pode atrasar a captura de resultados depois da compra.
Na integração, o desafio maior está nas pessoas. “O que é difícil é você integrar pessoas e fazer com que elas gerem sinergias de valor para empresa”, disse.
Anatel olha competição local
José Borges afirmou que a consolidação, por si só, não representa um problema concorrencial. Para a Anatel, o impacto depende da configuração de cada operação e do efeito sobre a competição em cada mercado.
Segundo ele, negócios entre empresas que atuam em regiões diferentes podem gerar escala sem reduzir alternativas para os consumidores. Já operações com maior sobreposição, principalmente em grandes centros, exigem atenção adicional.
“A indústria de telecomunicações sempre tende justamente a uma maior consolidação porque a eficiência vem justamente na escala”, afirmou.
Borges acrescentou que a agência não trabalha com um número ideal de empresas no setor. “A qualidade desse processo que importa”, disse.
Informalidade afeta M&A
Rodrigo Schuch destacou que a informalidade continua afetando a competição e o apetite para aquisições, ao colocar empresas que cumprem obrigações tributárias, trabalhistas e regulatórias em disputa com operações de custos menores por não seguirem as mesmas regras.
“Você tem 19.000 empresas hoje outorgadas, e apenas 700 empresas têm uma base acima de 5.000 assinantes”, afirmou.
Para Schuch, a falta de áreas ainda pouco disputadas também favorece a consolidação. “O mercado tende muito mais para uma consolidação, do que para um voo só”, disse.
Em regiões com muitos competidores, acrescentou> “É mais barato eu consolidar do que tentar conquistar mercado em uma área que já está plenamente atendida e com competição extremamente elevada”.
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