Internet rural chega a 115 Mbps em testes com frequências de TV

Da Redação- 9 de outubro de 2026 | 14:02

Uma tecnologia nacional que utiliza canais ociosos da televisão digital alcançou velocidade máxima de 115 Mbps de download e manteve conexões de rádio estáveis a 11,6 quilômetros de distância durante testes realizados em Quixadá, no Ceará. Desenvolvida pelo NIC.br, pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e pelo Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), a solução busca ampliar a oferta de banda larga em áreas rurais e remotas, aproveitando frequências que não estão sendo utilizadas pela radiodifusão.
Os resultados foram obtidos na quarta fase do Projeto TV White Space (TVWS), que agora avança para uma nova etapa de desenvolvimento, voltada à redução dos custos dos equipamentos e à preparação da tecnologia para utilização fora do ambiente experimental.
A proposta é oferecer uma alternativa para localidades onde a baixa densidade populacional e os custos de implantação dificultam a expansão das redes convencionais de telecomunicações. A solução também poderá ser utilizada por provedores regionais para distribuir conectividade em comunidades afastadas, propriedades agrícolas e instalações industriais.
Testes comprovam alcance de 11,6 quilômetros
Os experimentos foram realizados a partir de uma estação rádio base instalada no campus da UFC em Quixadá, conectada a pontos remotos como a Escola Aziz Okka Baquit, a Ecopousada Mosteiro da Santa Cruz e a localidade de Riacho Verde.
A rede registrou velocidade máxima de 115 Mbps de download e manteve enlaces de radiofrequência estáveis a 11,6 quilômetros, demonstrando a viabilidade técnica da solução nas condições avaliadas. Os testes seguiram as disposições da Resolução nº 747/2021 da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

O TVWS utiliza os chamados espaços em branco do espectro de televisão, ou seja, canais que não estão ocupados por emissoras em determinada região. Como essas frequências apresentam características de propagação adequadas à cobertura de grandes extensões territoriais, podem ser aproveitadas para estabelecer redes terrestres de longo alcance.
O funcionamento depende de uma base de dados georreferenciada que informa quais canais estão disponíveis em cada localidade. Antes de iniciar a transmissão, a estação consulta o sistema e realiza o sensoriamento do espectro para verificar se as frequências indicadas estão efetivamente desocupadas.
Caso seja detectado um sinal de televisão, o equipamento comunica a inconsistência à base e solicita novos canais, evitando interferências nas transmissões das emissoras licenciadas.
Plataforma poderá apoiar fiscalização da Anatel
Um dos produtos desenvolvidos pelo projeto é o Fiquespectro, sistema que reúne informações georreferenciadas sobre a disponibilidade e a utilização dos canais de televisão.
Além de orientar a operação das redes TVWS, a ferramenta poderá receber dados de sensoriamento e uso efetivo das frequências, contribuindo para identificar interferências, aperfeiçoar modelos de propagação e apoiar o planejamento regulatório.
Segundo Rodrigo Porto, coordenador do Grupo de Pesquisa em Telecomunicações sem Fio da UFC, essas informações poderão auxiliar diretamente a Anatel.
“Essa base pode ser alimentada por dados de uso efetivo dos canais [usuários primários e secundários] e de sensoriamento de sinal de rádio, gerando inteligência que pode subsidiar diretamente a melhoria de modelos de propagação e a atuação da agência reguladora”, explica.
O sistema também permite registrar o histórico de utilização do espectro, oferecendo mecanismos de rastreabilidade e auditoria para a identificação de situações anômalas.
Nova fase busca reduzir custos para provedores
Com quatro etapas concluídas, o projeto entrou na quinta fase, concentrada no aperfeiçoamento dos equipamentos e na redução das exigências de processamento, memória e consumo de energia.
O trabalho inclui a adaptação dos programas para uma plataforma própria de hardware de menor custo, melhorias para operação em modo TDD (Time Division Duplex), testes com tecnologias TVWS disponíveis no mercado e atualizações do Fiquespectro, que deverá incorporar novas visualizações e alertas em tempo real.
Para Luciano Leonel Mendes, coordenador de pesquisa do Centro de Referência em Radiocomunicações do Inatel, a viabilidade econômica é um dos principais desafios para ampliar a conectividade em regiões afastadas.
“Há interesse dos provedores regionais em levar Internet ao campo, mas ainda faltam tecnologias que permitam atender essas comunidades com um custo viável para quem oferece o serviço, e um preço acessível para quem lá vive”, afirma.
A tecnologia também poderá complementar conexões via satélite. Nesse modelo, o enlace satelital levaria a internet até uma localidade remota, enquanto a rede TVWS distribuiria o sinal terrestre para residências, escolas, unidades de saúde e dispositivos de Internet das Coisas (IoT).
A iniciativa conta ainda com apoio do Foreign, Commonwealth & Development Office (FCDO), do Reino Unido.
Embora os protótipos estejam em estágio avançado de desenvolvimento, ainda não foram divulgados preços dos equipamentos, previsão de comercialização ou cronograma para disponibilização da tecnologia aos provedores de internet. (Com assessoria de imprensa)
Tags# inatel# internet# IOT# nic.br# TV# ufc
