D2C não ameaça teles no curto prazo, avalia Fitch

Rafael Bucco
- 21 de outubro de 2026 | 20:02
Agência prevê que conexão direta entre satélites e celulares complemente redes das operadoras latino-americanas nos próximos dois a três anos.

Os serviços de conexão direta entre satélites e celulares, conhecidos como direct-to-cell (D2C), não devem representar ameaça competitiva relevante nem risco às classificações de crédito das operadoras de telecomunicações da América Latina nos próximos dois a três anos. A avaliação é da Fitch Ratings, em análise divulgada nesta quarta-feira, 21 de outubro. Para a agência, a tecnologia amplia a cobertura das redes terrestres, com predominância de parcerias comerciais lideradas pelas teles.
Nesse modelo, as operadoras mantêm o relacionamento com os clientes, o faturamento, os dados dos usuários e os direitos de uso do espectro, enquanto utilizam a conectividade satelital para atender áreas remotas. Segundo a Fitch, esse arranjo sustenta o perfil de negócios das empresas estabelecidas e limita riscos no curto prazo para companhias avaliadas pela agência, como a chilena Entel e a mexicana América Móvil, controladora da Claro.
Cinco condições para uma ameaça competitiva
A Fitch considera que o D2C se tornaria uma ameaça mais significativa se os provedores conseguissem atender simultaneamente a cinco condições, sem depender de uma operadora móvel licenciada: oferecer voz, além de mensagens; manter velocidades estáveis quando muitos usuários compartilham um feixe; obter acesso nacional a espectro em cada mercado; suportar aparelhos já em uso; e praticar preços acessíveis ao público-alvo.
Os serviços atuais, conforme a análise, concentram-se em mensagens e aplicações selecionadas de baixa demanda de banda. A oferta de voz ainda não atingiu escala, e o desempenho de dados permanece abaixo das redes terrestres de quarta e quinta gerações.
A capacidade dos satélites, o licenciamento de espectro, a compatibilidade dos aparelhos e a necessidade de visada desobstruída para o satélite também restringem a adoção. Essas limitações afetam especialmente o uso em ambientes internos e em cidades densas, onde as operadoras concentram a maior parte do tráfego, aponta a agência.
Chile e México mostram modelos distintos
No Chile, a Fitch relata que mensagens por satélite foram inicialmente oferecidas gratuitamente aos assinantes de uma operadora parceira. Aplicações de mapas e meteorologia foram incorporadas a planos premium. A conexão satelital é ativada apenas quando não há cobertura terrestre, e os custos de implementação não foram relevantes, segundo a análise.
A oferta contribuiu para aquisição de clientes e diferenciação dos serviços, funcionando mais como instrumento de retenção do que como fonte independente de receita. A Fitch considera o efeito favorável ao perfil de crédito das operadoras participantes e neutro para o setor como um todo.
O México é apontado como a principal exceção regional ao modelo liderado pelas teles. Desde maio de 2025, segundo o comunicado, a Apple oferece mensagens gratuitas por satélite em iPhones compatíveis, com capacidade fornecida pela Globalstar sob sua própria licença autorizada de espectro móvel por satélite.
A agência avalia que o efeito imediato sobre o crédito das operadoras mexicanas é neutro, porque a oferta é gratuita e limitada a mensagens. O país, porém, constitui um teste para a expansão de serviços satelitais fora do modelo predominante de parceria.
Aquisições seriam o cenário de maior ruptura
A Fitch descreve três possíveis caminhos para o mercado. No cenário-base, os provedores satelitais vendem capacidade no atacado às operadoras locais, que preservam o relacionamento com os clientes.
Uma segunda possibilidade é um modelo híbrido, que combine cobertura orbital com implantação seletiva de infraestrutura terrestre. Esse formato poderia elevar a pressão sobre preços e margens, mas depende de aprovações regulatórias e acesso nacional a espectro. A necessidade de cooperação das operadoras estabelecidas e o investimento exigido pela rede terrestre são apontados como barreiras.
O terceiro caminho, considerado o mais disruptivo, seria a entrada de um provedor satelital no mercado por meio de aquisição. Isso permitiria competir com uma oferta completa de produtos e serviços e cobertura mais ampla, com potencial de pressionar o desempenho operacional e financeiro das teles.
Para a Fitch, a replicação do modelo mexicano em outros países seria o sinal mais claro de aumento do risco competitivo. Mudanças contratuais que transfiram faturamento, relacionamento com clientes ou acesso a dados aos provedores satelitais também seriam negativas para o crédito. Até que essas condições mudem, a agência espera que o D2C permaneça como solução complementar à cobertura terrestre.
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