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TeleSíntese06/10/2026por Adriano Camargo

Capital caro obriga telecom a provar retorno dos investimentos

Capital caro obriga telecom a provar retorno dos investimentos
Capital caro obriga telecom a provar retorno dos investimentos

Sobreposição de redes, receita média estagnada e crédito caro elevam a cobrança por eficiência na alocação de recursos.

Painel Futurecom 1

O aumento do custo do capital, a sobreposição de redes e o baixo crescimento das receitas estão mudando os critérios de investimento no setor de telecomunicações. Projetos antes sustentados pela expansão da cobertura e da base de assinantes passam a enfrentar maior cobrança pela demonstração do retorno financeiro.

A avaliação foi apresentada nesta terça-feira, 6, durante o painel “Previsibilidade dos investimentos e retorno”, na Futurecom 2026, em São Paulo. O debate reuniu Valder Nogueira, do Santander; Ari Lopes, da Omdia; Gustavo Barros, da IT Investimentos; e Fábio Câmara, da FCamara.

Segundo Lopes, o setor global de telecomunicações movimenta aproximadamente US$ 1,3 trilhão por ano, mas cresceu cerca de 3% no último período analisado. No Brasil, as receitas dos serviços de conectividade fixa e móvel também avançam em ritmo reduzido.

A mudança ocorre depois de um ciclo marcado pela ampliação da cobertura e pela entrada de milhares de provedores regionais no mercado de banda larga. Essas empresas já respondem por perto de 60% do segmento e, em muitos casos, alcançaram uma escala que não permite mais classificá-las como pequenos negócios.

Expansão encontra limite

A Omdia analisou 650 operadoras em diferentes países e identificou que poucas conseguiram elevar a receita de banda larga por meio de reajustes de preços ou da venda de serviços adicionais. Na maior parte dos casos, o avanço continuou associado à entrada de clientes.

Esse modelo perde força à medida que a cobertura aumenta e o mercado amadurece. No Brasil, a receita média por usuário permanece estagnada, enquanto as companhias precisam financiar manutenção, atualização tecnológica, expansão de capacidade e atendimento aos assinantes.

Lopes afirmou que o setor passou de um ambiente em que a oferta estava atrás da demanda para uma situação de financiamento mais caro e infraestrutura duplicada em diferentes localidades.

“O investimento foi feito, existe sobreposição e vai precisar agora passar por um processo de racionalização”, disse o analista da Omdia.

Como exemplo de coordenação dos aportes, Lopes citou a implantação do 5G na China. Embora o país tenha quatro operadoras móveis, a infraestrutura foi organizada em duas redes compartilhadas por pares de empresas, reduzindo a duplicação dos investimentos.

Consolidação teve resultados desiguais

Gustavo Barros analisou os movimentos de consolidação realizados pelos provedores durante o ciclo de expansão da banda larga. Segundo o executivo da IT Investimentos, algumas empresas tentaram se posicionar como compradoras, enquanto outras buscaram ganhar escala para serem adquiridas posteriormente.

Barros afirmou que parte dessas estratégias não alcançou os resultados esperados. Para o executivo, o mercado atravessa um momento delicado após o período em que diferentes provedores tentaram atuar como consolidadores ou preparar suas operações para uma venda.

Nogueira também apontou excesso na construção de redes no mercado brasileiro. Segundo o representante do Santander, diferentes empresas aplicaram recursos em infraestrutura motivadas pela demanda por banda larga e pelas perspectivas de consolidação.

A disponibilidade de financiamento ajudou a sustentar esse ciclo. Com a mudança das condições econômicas, as operadoras passaram a enfrentar uma combinação de endividamento, crescimento reduzido e necessidade de novos aportes em tecnologia.

Para Nogueira, as empresas precisam manter os balanços preparados para absorver as mudanças tecnológicas. A inovação pode elevar a eficiência e abrir fontes de faturamento, mas também representa risco quando exige recursos sem resultado demonstrável.

“Eduquem-se financeiramente, eduquem-se em tecnologia e em como esse setor pode ser mais eficiente”, afirmou.

IA precisa gerar diferenciação

Fábio Câmara afirmou que a inteligência artificial pode ajudar as empresas de telecomunicações a diferenciar ofertas em um mercado no qual os serviços de conectividade são percebidos como semelhantes.

Para o executivo da FCamara, utilizar a tecnologia apenas para automatizar tarefas e reduzir despesas limita seu potencial. A prioridade deveria ser conhecer melhor os assinantes, personalizar o atendimento e desenvolver serviços adicionais.

“Use a inteligência artificial para conhecer o seu cliente, use a inteligência artificial para hiperpersonalização”, afirmou.

Câmara ressaltou que as empresas apresentam diferentes níveis de maturidade. Enquanto a maioria ainda busca compreender como obter valor com a tecnologia, uma parcela menor já discute governança e utilização da IA para transformar serviços.

O executivo também recomendou que as lideranças participem diretamente da adoção, em vez de delegarem integralmente o tema às equipes técnicas. “Não delegue, não mande alguém fazer por vocês. Metam a mão na graxa e façam alguma coisa com inteligência artificial”, disse.

Lopes acrescentou que a falta de preparação das equipes representa um risco. Pesquisa global citada pela Omdia, realizada com 13 mil empresas, mostrou que aproximadamente 90% não se consideravam preparadas para absorver da melhor forma o valor dos investimentos em IA.

Novas aplicações, porém, podem ampliar a demanda por conectividade. Lopes citou uma determinação adotada no exterior que substituiu o triângulo de segurança dos automóveis por um dispositivo conectado capaz de transmitir a localização do veículo aos serviços de emergência. Segundo o analista, a medida abriu uma demanda de dezenas de milhões de conexões.

Tags# operadoras# telecomunicações
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