Brasscom prevê R$ 127 bi para cibersegurança até 2029

Adriano Camargo- 28 de outubro de 2026 | 15:46
Projeção abrange 2026 a 2029; estudo aponta avanço no índice nacional de segurança e maturidade de telecom acima da média.

O Brasil deverá movimentar R$ 126,9 bilhões em investimentos em cibersegurança entre 2026 e 2029, segundo projeção da Brasscom. Os gastos anuais devem passar de R$ 25,6 bilhões para R$ 38,2 bilhões no período, crescimento de 49%. Apesar da expansão, as empresas brasileiras destinam, em média, 6,4% de seus orçamentos de tecnologia da informação à proteção digital, percentual inferior à faixa de 8% a 12% utilizada como referência internacional no levantamento.
Os dados integram o Relatório de Cibersegurança 2026, apresentado nesta quarta-feira, 28, durante webinar promovido pela Brasscom, com apoio da Associação Brasileira de Empresas e Profissionais de Segurança Cibernética (ABRASECI) e da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP). Participaram do debate o presidente executivo da Brasscom, Affonso Nina; a presidente da ABRASECI, Carmina Hissa; e a diretora adjunta de Pesquisa e Desenvolvimento da RNP, Michelle Wangham.
O estudo mostra que os investimentos brasileiros em segurança digital aumentaram 66% entre 2023 e 2025, de R$ 13,4 bilhões para R$ 22,2 bilhões. Na projeção para 2026 a 2029, software de segurança representa 48% dos gastos, seguido por serviços de TI (44%), hardware (6%) e serviços de negócios (2%).
Para Affonso Nina, o crescimento dos investimentos precisa acompanhar a evolução das ameaças. “Esse ritmo de aceleração dos investimentos ou de crescimento dos investimentos em cibersegurança precisa ser maior”, afirmou durante o webinar.
O executivo defendeu a combinação de três frentes: adoção de tecnologias de proteção, estabelecimento de políticas de governança e formação de profissionais especializados. Segundo ele, a crescente organização das atividades criminosas exige que as empresas reduzam o tempo de identificação e resposta aos incidentes.

Telecomunicações superam média nacional de maturidade
O Brasil registrou crescimento de 41% na pontuação do National Cyber Security Index (NCSI) entre 2023 e 2025, passando de 50,65 para 71,67 pontos. O indicador avalia capacidades nacionais de prevenção, detecção e resposta a incidentes cibernéticos, incluindo políticas de segurança, proteção de serviços e gestão de crises. Apesar da evolução, o país passou da 54ª para a 55ª posição na classificação internacional.
No ambiente corporativo, o relatório identifica diferenças entre setores econômicos. Segundo levantamento da VULTUS, baseado nos princípios do NIST Cybersecurity Framework, a maturidade média brasileira é de 1,61 ponto, em uma escala de zero a cinco.
O setor de telecomunicações apresenta índice de 2,23 pontos, acima dos segmentos de tecnologia (1,71), governo (1,05) e educação (0,99). A meta de maturidade indicada no estudo para o mercado brasileiro é de 3,45 pontos. Os resultados seguem metodologia própria da VULTUS e não representam uma classificação oficial do NIST.

A proteção das infraestruturas críticas também esteve entre os temas discutidos. Affonso Nina mencionou um exercício de simulação realizado no âmbito da agenda Brasil Digital 30+, em colaboração com a Febraban, envolvendo os sistemas financeiro e de telecomunicações.
Segundo o presidente da Brasscom, a iniciativa buscou considerar a interdependência entre setores que operam serviços essenciais e a possibilidade de ataques afetarem diferentes infraestruturas simultaneamente. Ele defendeu uma abordagem integrada de segurança, em substituição a análises restritas a cada atividade econômica.
Os indicadores de incidentes apresentados no relatório reforçam a dimensão dos riscos. Dados do CERT.br mostram que as notificações relacionadas a aplicações web aumentaram de 7.937 em 2024 para 19.965 em 2025, enquanto os registros de invasões passaram de 3.100 para 3.729. Os números refletem notificações voluntárias e podem estar sujeitos à subnotificação.
Governança de IA preocupa empresas e especialistas
A expansão do uso de IA nas organizações acrescenta desafios à proteção dos sistemas corporativos. Segundo dados reunidos pela Brasscom, 87% das empresas brasileiras não possuem políticas formais de governança de IA.
Durante o webinar, Carmina Hissa, presidente da ABRASECI, chamou atenção para os riscos associados à utilização de agentes de IA sem mecanismos adequados de supervisão. Na avaliação da dirigente, esses sistemas precisam ser tratados como participantes das operações corporativas, sujeitos a controles de acesso e políticas de segurança.
Entre as vulnerabilidades apontadas estão o uso de ferramentas não autorizadas, conhecido como Shadow AI, a exposição de credenciais e a possibilidade de agentes automatizados acessarem informações estratégicas.
“Quando a gente não tem uma política e uma governança de IA, a gente tem inúmeros agentes, que hoje eu chamo de colaboradores internos”, afirmou Carmina, ao explicar a necessidade de supervisionar as atividades executadas por essas ferramentas.
O relatório mostra que, entre organizações que já possuem políticas de governança de IA, 45% adotam procedimentos de aprovação de iniciativas, 32% auditam modelos e apenas 16% monitoram especificamente o uso de ferramentas não autorizadas.
Por outro lado, a aplicação de IA nas atividades de prevenção, detecção e resposta a incidentes está associada à redução dos prejuízos financeiros decorrentes de ataques.
Dados da IBM mostrados no levantamento indicam que, no Brasil, organizações com uso amplo de IA e automação apresentam custo médio de violação de dados 26% menor. O valor é de R$ 6,5 milhões por ocorrência, ante R$ 8,8 milhões nas empresas sem utilização dessas tecnologias. A diferença corresponde a aproximadamente R$ 2,3 milhões, ou US$ 400 mil, conforme a conversão adotada no estudo.
Carmina também alertou para os efeitos futuros da computação quântica sobre a proteção de informações corporativas. Segundo ela, empresas que precisam preservar dados confidenciais por longos períodos devem considerar a evolução das tecnologias criptográficas em seus planejamentos de segurança.
Hackers do Bem supera 50 mil certificados e amplia formação prática
A qualificação profissional foi outro tema do debate. O relatório aponta crescimento médio anual de 18,6% no emprego em ocupações específicas de cibersegurança entre 2019 e 2025, quando o contingente analisado chegou a 8.944 trabalhadores.
O levantamento considera duas ocupações da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO): gerente de segurança de TI e administrador em segurança da informação. Profissionais registrados em outras categorias, como analistas de sistemas e engenheiros da computação, não estão necessariamente incluídos nesse total.
Michelle Wangham, diretora adjunta de P&D da RNP, destacou a necessidade de ampliar a capacitação técnica e incorporar experiências práticas à formação.
“O grande desafio não é apenas formar mais profissionais, mas desenvolver essas competências que acompanhem essa evolução dessas novas ameaças”, afirmou.
A dirigente apresentou os resultados do programa Hackers do Bem, iniciativa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação executada pela RNP e pelo Senai São Paulo, no âmbito do Programa Prioritário de Informática da Softex.
O programa contabiliza 210.589 inscritos, dos quais 147.177 acessaram efetivamente o ambiente virtual de aprendizagem. Foram emitidos 50.685 certificados ao longo das trilhas formativas, que incluem conteúdos básicos e especializações em Red Team, Blue Team, resposta a incidentes, perícia digital e segurança no desenvolvimento de software.
Michelle informou que mais de 200 participantes receberam bolsas para residência tecnológica, com atividades práticas realizadas, inclusive, na infraestrutura e nos pontos de presença da RNP.
O Hackers do Bem também mantém um ambiente de conexão entre estudantes, pesquisadores e empresas, denominado Hub Hackers do Bem. A plataforma conta com participação de parceiros privados, entre eles a Cisco, e busca aproximar os profissionais em formação das demandas do mercado.
Pesquisa em cibersegurança gera ferramentas utilizadas pela Anatel
Além da capacitação, Michelle Wangham apresentou iniciativas de pesquisa e desenvolvimento voltadas à criação de tecnologias nacionais de segurança digital.
Segundo a dirigente, chamadas de P&D vinculadas ao Hackers do Bem financiaram soluções para ensino e treinamento em cibersegurança, parte delas disponibilizada em código aberto.
Um dos exemplos mencionados foi uma ferramenta desenvolvida por pesquisadores do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) que, conforme Michelle, passou a ser utilizada pela Anatel em atividades de treinamento.
A RNP também desenvolveu um mapeamento da comunidade acadêmica brasileira de cibersegurança, reunindo pesquisadores, grupos vinculados ao CNPq, programas de pós-graduação, teses e dissertações. O trabalho foi apresentado em uma iniciativa relacionada aos países do BRICS.
O levantamento, segundo Michelle, permite identificar competências científicas distribuídas pelo país e acompanhar o desenvolvimento de projetos e startups ligados à proteção digital. A RNP busca aproximar essas iniciativas do setor produtivo.
Na avaliação da dirigente, o Brasil precisa ampliar a oferta de cursos técnicos e superiores, programas de pós-graduação, laboratórios e residências para atender à demanda por especialistas e pesquisadores.
A articulação entre infraestrutura, desenvolvimento tecnológico e qualificação também aparece nas propostas da Brasscom para o ciclo 2027–2030. Na agenda apresentada pela entidade, a cibersegurança integra o eixo de tecnologias estratégicas, ao lado da inteligência artificial, dos data centers e da economia de dados.
O documento defende a ampliação dos investimentos em proteção digital, associada à adoção de políticas de governança e ao desenvolvimento de competências nacionais para prevenir, detectar e responder a ataques contra sistemas e infraestruturas essenciais.
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