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TeleSíntese10/10/2026por Paula Coutinho

As diferentes estratégias de Equinix e Elea para ampliar data centers no Brasil

As diferentes estratégias de Equinix e Elea para ampliar data centers no Brasil
As diferentes estratégias de Equinix e Elea para ampliar data centers no Brasil

Equinix prioriza mercados com demanda e interconexão consolidadas; Elea aposta na descentralização e prevê 250 MW iniciais em projeto no Rio

A expansão dos data centers no Brasil está sendo conduzida por estratégias distintas de localização dos investimentos. Enquanto a Equinix mantém a concentração de empresas, redes e usuários como critério central para ampliar sua infraestrutura, especialmente no eixo Rio–São Paulo, a Elea aposta na descentralização geográfica para atender mercados regionais e criar novos polos de processamento de dados.

data centers

As diferenças foram discutidas nesta quinta-feira, 8, no painel “Operators Fireside Chat: Crescendo rápido demais? Os limites reais de expandir data centers no Brasil”, realizado no Data Center World (DCW), durante a Futurecom 2026, em São Paulo. Participaram Eduardo Shuto, diretor de Estratégia da Equinix para a América Latina, Fernanda Belchior, diretora nacional de Vendas e Marketing da Elea, e Flávio Lang, CEO do Tele.Síntese e da Emerging, responsável pela mediação.

Lang abriu a discussão destacando que as duas operadoras seguem estratégias distintas. A Elea construiu sua presença nacional a partir da aquisição de instalações de telecomunicações e da expansão para mercados regionais. A Equinix concentra sua atuação em ecossistemas de interconexão digital, nos quais a proximidade entre empresas, provedores de nuvem e operadoras constitui parte do valor oferecido aos clientes.

O moderador questionou se, diante dessa diferença, a estratégia da Equinix seria ampliar a disponibilidade de energia no eixo Rio–São Paulo, em vez de deslocar os data centers para regiões mais distantes dos principais centros consumidores.

Equinix exige diversidade de clientes para expandir

Shuto afirmou que existe espaço para as duas estratégias, mas ressaltou que a Equinix avalia a expansão a partir da existência de demanda sustentável no médio e longo prazo.

O executivo explicou que um grande cliente pode justificar a construção de um data center em determinada região, mas sua presença isolada não significa que haverá um ecossistema de interconexão capaz de sustentar novos investimentos.

“Um cliente de grande porte até viabiliza um projeto fora de São Paulo, mas a gente também não acha que só um cliente grande, por si só, cria um ecossistema”, afirmou.

Segundo Shuto, a Equinix procura mercados com diversidade de clientes, empresas de redes e demanda por troca de dados. A localização próxima dos usuários e das empresas que produzem ou consomem informações também integra essa avaliação.

O executivo citou o mercado norte-americano para argumentar que, apesar da existência de instalações destinadas a aplicações específicas em regiões afastadas, os grandes centros continuam concentrando parte relevante da infraestrutura digital.

Na avaliação da Equinix, essa concentração permanecerá importante com o crescimento da inferência de inteligência artificial, etapa em que modelos já treinados são utilizados para processar informações e produzir resultados.

Shuto explicou que os dados podem ser gerados, processados e consumidos em locais diferentes. Essa arquitetura aumenta a necessidade de interconexão entre data centers, redes e empresas.

Ao ser questionado por Lang sobre investimentos fora do eixo Rio–São Paulo, o executivo respondeu que a companhia analisa outras regiões, mas considera que diferentes mercados cumprem funções distintas.

“Ainda São Paulo e Rio têm a sua função”, afirmou.

A Equinix possui mais de 250 data centers distribuídos por mais de 70 mercados metropolitanos no mundo. Shuto é responsável pela avaliação de investimentos orgânicos e aquisições da companhia na América Latina.

Elea aposta na criação de mercados regionais

Fernanda Belchior apresentou uma estratégia baseada na distribuição da infraestrutura digital pelo território brasileiro.

Criada em 2019, a Elea opera nove data centers no país e possui cerca de 300 colaboradores, segundo a executiva. A plataforma atende empresas, organizações públicas, provedores de serviços digitais e clientes de grande porte, incluindo companhias de nuvem e inteligência artificial.

Fernanda explicou que a estratégia começou com a aquisição de instalações que pertenciam a empresas de telecomunicações ou já concentravam infraestrutura de conectividade.

A partir dessa base, a companhia investiu em backbone próprio e na ampliação da presença de operadoras dentro de seus data centers.

“A infraestrutura começa pela rede”, afirmou.

Segundo a executiva, essa estrutura permite atender provedores de internet, operadoras e clientes corporativos, além de receber cargas computacionais de empresas de nuvem e inteligência artificial.

A Elea também mantém investimentos em mercados consolidados. Fernanda citou a aquisição de infraestrutura em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, associada ao contrato de computação de alto desempenho da Petrobras.

A descentralização, portanto, não representa uma saída dos grandes centros, mas a inclusão de outras regiões na estratégia de expansão.

Belém terá primeira etapa de 7,5 MW

Um dos exemplos apresentados por Fernanda foi o projeto anunciado pela Elea em Belém, no Pará.

Segundo a executiva, a companhia considera a capital paraense uma localização complementar a Fortaleza, que já concentra infraestrutura de cabos submarinos e conectividade internacional.

A Elea também identifica demanda de empresas e instituições públicas da região Norte por serviços de processamento e armazenamento de dados.

Fernanda afirmou que o projeto poderá contribuir para reduzir a necessidade de manter determinadas cargas computacionais em instalações próprias ou em outras regiões do país.

A primeira etapa foi apresentada com capacidade de aproximadamente 7,5 MW, em parceria com a Axia Energia, antiga Eletrobras. Segundo a executiva, o acordo oferece uma perspectiva de fornecimento de energia de longo prazo.

A companhia também mantém conversas com parceiros de conectividade, considerando a infraestrutura disponível na região e a possibilidade de integração com rotas de cabos submarinos.

Fernanda destacou que a entrada em Belém depende da articulação entre energia, conectividade e demanda, além do envolvimento de agentes públicos e privados.

Lang relacionou essa estratégia à necessidade de processamento local em regiões distantes dos grandes centros. Como exemplo, mencionou investimentos da Vale em telecomunicações e computação de borda em Carajás, discutidos em outro painel da Futurecom.

Segundo o moderador, aplicações industriais específicas podem exigir infraestrutura próxima da operação, mesmo quando os principais polos nacionais de data centers estão localizados em outras regiões.

Contrato da Petrobras prevê 30 MVA por 17 anos

A Elea também identifica oportunidades na demanda de empresas e órgãos públicos por serviços de colocation e processamento de dados.

Fernanda citou o contrato firmado com a Petrobras para uma infraestrutura de computação de alto desempenho destinada a atividades de pesquisa científica relacionadas à exploração em águas profundas.

Segundo ela, o contrato prevê 30 MVA e prazo de 17 anos.

A executiva afirmou que a demanda de organizações públicas por infraestrutura digital vem crescendo e mencionou projetos de menor porte, com capacidades de 1 MW ou 2 MW, além de instalações destinadas a grandes clientes.

Na avaliação da Elea, a distribuição dos data centers permite atender diferentes perfis de demanda, incluindo processamento de dados públicos, serviços de nuvem e aplicações empresariais.

Fernanda também relacionou essa estratégia à soberania digital, especialmente quando o processamento envolve informações de instituições brasileiras.

Elea prevê 250 MW iniciais no Rio AI City

A expansão regional convive com projetos de grande escala dentro da estratégia da Elea.

Lang questionou Fernanda sobre a viabilidade do Rio AI City, empreendimento anunciado pela companhia com capacidade projetada de 1,5 GW.

O moderador comparou essa dimensão à capacidade instalada de data centers no Brasil, que estimou em aproximadamente 1,2 GW, e perguntou se haveria demanda para sustentar um projeto maior do que toda a infraestrutura existente no país.

Fernanda respondeu que a implantação será faseada e afirmou que a companhia já possui um contrato ou reserva garantida para os primeiros 250 MW.

A executiva também informou que a Elea assegurou a aquisição de terreno para uma segunda instalação, denominada RJ2, que será conectada ao RJ1, data center em operação adquirido anteriormente da Globo.

Segundo Fernanda, o projeto considera a disponibilidade de energia, conectividade por cabos submarinos e condições urbanísticas da localização escolhida.

Ela afirmou que a empresa mantém conversas com potenciais clientes e trabalha na estruturação da transmissão elétrica necessária para atender às diferentes etapas do empreendimento.

A executiva mencionou ainda entendimentos com a Tapestry, iniciativa vinculada ao Google, para avaliar tecnologias de análise e otimização da rede elétrica.

Ao discutir a demanda futura, Fernanda concordou com Shuto sobre a importância da inferência de inteligência artificial, embora a Elea também pretenda receber cargas destinadas ao treinamento de modelos.

Equinix vê maior oportunidade na inferência de IA

O crescimento da inteligência artificial também expôs diferenças na avaliação das oportunidades para o Brasil.

Lang perguntou a Shuto se as incertezas relacionadas ao Redata poderiam ter feito o país perder a primeira janela de investimentos internacionais em grandes instalações destinadas ao treinamento de modelos.

O executivo reconheceu que a primeira onda de investimentos se concentrou em mercados com maior disponibilidade de capital, demanda e condições geopolíticas consideradas favoráveis pelas empresas.

Segundo ele, parte relevante desses projetos foi direcionada aos Estados Unidos e a outros mercados nos quais os investidores já possuíam operações consolidadas.

Shuto avaliou, porém, que o Brasil ainda tem oportunidades em outras etapas da cadeia de inteligência artificial.

Para o executivo, a inferência pode gerar impacto econômico maior para empresas e usuários brasileiros do que a simples instalação de capacidade destinada ao treinamento de modelos que poderão ser utilizados em outros países.

“A inferência vai ser algo que vai ser construído aqui”, afirmou.

Na avaliação de Shuto, o Redata poderá melhorar as condições econômicas dos projetos, mas não será responsável, isoladamente, por criar demanda por inteligência artificial.

O executivo afirmou que a expansão dessas aplicações continuará ocorrendo independentemente do regime tributário.

Capital global e energia entram na decisão

Na parte final do debate, Lang levou a discussão para o financiamento dos empreendimentos.

O moderador destacou que os investimentos em data centers ocorrem em ciclos e questionou se as condições de crédito e os juros elevados no Brasil poderiam limitar novas etapas de expansão.

Também apontou estabilidade política e disponibilidade de capital como fatores que influenciam a formação de ecossistemas digitais.

Shuto respondeu que a importância do financiamento depende da escala do projeto.

Segundo ele, grandes instalações destinadas ao treinamento de modelos de inteligência artificial disputam capital em um mercado global. Nesse caso, investidores comparam países considerando riscos, capacidade de execução, soberania de dados e condições políticas.

Para projetos de médio e pequeno porte, o executivo afirmou que o capital não é necessariamente o principal obstáculo.

Na avaliação da Equinix, a disponibilidade de energia no longo prazo, a capacidade de execução e a qualidade do planejamento podem ser fatores mais determinantes.

Shuto acrescentou que o financiamento dos investimentos da Equinix é estruturado com capital global, e não por meio de crédito local.

As declarações mostram que a expansão dos data centers no Brasil não depende de uma única estratégia territorial. Para a Equinix, a concentração de demanda e a diversidade de participantes sustentam a decisão de ampliar os ecossistemas existentes. Para a Elea, a construção de infraestrutura regional pode atender demandas locais e abrir espaço para novos mercados, sem excluir investimentos de grande escala no Rio de Janeiro e em São Paulo.

 

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