A geração mais conectada da história conhece quem está por trás da tecnologia que usa?

Nunca foi tão simples enviar uma mensagem para outro país, assistir a uma transmissão ao vivo, realizar um pagamento por aproximação ou acessar arquivos armazenados em servidores distantes. A conectividade foi incorporada à rotina de maneira tão natural que praticamente deixou de ser percebida. Enquanto as tecnologias digitais ocupam cada vez mais espaço no cotidiano, a infraestrutura e os profissionais que garantem seu funcionamento permanecem, em grande medida, invisíveis.
Essa falta de visibilidade ajuda a explicar um paradoxo do mercado de trabalho. Ao mesmo tempo que cresce a demanda por profissionais de engenharia e tecnologia, muitos jovens ainda demonstram pouco interesse ou conhecimento sobre essas carreiras. A geração mais conectada da história utiliza soluções digitais durante grande parte do dia, mas nem sempre compreende como elas são desenvolvidas, quais sistemas estão envolvidos ou quem trabalha para mantê-las disponíveis.
Entre esses profissionais, o engenheiro de telecomunicações tem um papel central: projetar e desenvolver as redes que permitem a circulação de dados e a comunicação entre pessoas, dispositivos e serviços.
O que existe por trás da conexão?
Uma chamada de vídeo, por exemplo, depende de muito mais do que um celular e um aplicativo. Para que a comunicação aconteça com qualidade, são necessárias redes de transmissão, antenas, cabos de fibra óptica, centros de processamento de dados, sistemas de armazenamento, softwares e protocolos de segurança.
Cabe ao engenheiro de telecomunicações planejar, dimensionar e integrar os sistemas de comunicação, considerando fatores como cobertura, capacidade e qualidade da transmissão. Seu trabalho ajuda a garantir que a rede suporte o volume de informações e mantenha a conexão estável. Essa atuação se soma à de técnicos, desenvolvedores e especialistas em redes e cibersegurança para viabilizar a comunicação.
O mesmo ocorre ao assistir a uma série por streaming, utilizar um aplicativo de transporte, acessar serviços bancários ou consultar uma plataforma de inteligência artificial. Todas essas experiências dependem de uma complexa combinação de conectividade, capacidade computacional e segurança da informação. Quando tudo funciona corretamente, a infraestrutura se torna quase imperceptível. Quando há uma falha, sua importância fica evidente.
Nesse contexto, as telecomunicações deixaram de representar apenas um setor específico da economia. Elas se tornaram a base sobre a qual grande parte da transformação digital é construída. Inteligência artificial, computação em nuvem, Internet das Coisas, cidades inteligentes, veículos conectados e automação industrial dependem de redes robustas, estáveis e seguras.
Essa infraestrutura está presente em fábricas que conectam máquinas e sensores, hospitais que realizam atendimentos a distância e cidades que integram informações sobre mobilidade, iluminação e segurança. Também sustenta o processamento dos grandes volumes de dados necessários ao avanço da inteligência artificial. Desenvolver essas soluções exige profissionais com formação técnica, capacidade de inovação e compreensão dos impactos econômicos e sociais da tecnologia.
Apesar dessa importância, as carreiras ligadas à engenharia e às telecomunicações ainda ocupam pouco espaço no imaginário dos estudantes. Parte do problema está na visão limitada sobre o que faz um engenheiro, muitas vezes associado apenas a cálculos abstratos ou ambientes industriais distantes da realidade dos jovens. Essa percepção não revela a diversidade de possibilidades em áreas como redes móveis, satélites, segurança digital, dispositivos inteligentes, equipamentos médicos, análise de dados e desenvolvimento de produtos.
Como despertar novas vocações?
Aproximar os jovens dessas profissões exige apresentá-las de forma conectada aos desafios atuais. Para além de explicar atividades e atribuições, é necessário mostrar como esses profissionais contribuem para ampliar o acesso à Internet, proteger dados, automatizar processos, melhorar serviços públicos e tornar empresas e cidades mais eficientes. O interesse tende a crescer quando matemática, física e tecnologia deixam de ser conteúdos isolados e passam a ser relacionados a problemas concretos.
Escolas, universidades e empresas possuem responsabilidades complementares nesse processo. A educação básica pode estimular a curiosidade por meio de laboratórios, programação, robótica e projetos interdisciplinares. As universidades podem fortalecer a relação entre formação, pesquisa e mercado. Já as empresas podem proporcionar visitas, mentorias, estágios e experiências práticas com tecnologias emergentes.
Mais do que formar profissionais para ocupar vagas existentes, instituições de ensino e pesquisa têm o papel de despertar vocações e mostrar que a engenharia está diretamente relacionada aos desafios que moldarão o futuro. Ao aproximar estudantes da inovação, da pesquisa aplicada e dos problemas reais da sociedade, essas instituições ajudam a revelar novas possibilidades de carreira e a ampliar a compreensão sobre o impacto dessas profissões.
Essa integração também é essencial para reduzir a distância entre o que é ensinado e as transformações que já ocorrem no ambiente profissional. O avanço tecnológico exige atualização constante, capacidade de trabalhar em equipes multidisciplinares e compreensão dos impactos econômicos e sociais de cada solução. Formar profissionais para esse cenário significa combinar conhecimento técnico, criatividade, pensamento crítico e visão de longo prazo.
A conectividade continuará presente em praticamente todas as dimensões da vida. O desafio está em evitar que os profissionais e os sistemas responsáveis por sustentá-la permaneçam desconhecidos. Mostrar aos jovens o que existe por trás de cada mensagem enviada, de cada serviço digital acessado e de cada equipamento conectado pode ser o primeiro passo para despertar novas vocações.
A geração mais conectada da história já domina o uso da tecnologia. Falta ampliar seu contato com as profissões que permitem criá-la, aperfeiçoá-la e levá-la cada vez mais longe.
* Sobre o autor – Marcelo Marques é coordenador do Curso de Engenharia de Telecomunicações do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel) e presidente da Fundação Instituto Nacional de Telecomunicações (Finatel). As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente as visões de TELETIME.


