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TeleSíntese07/10/2026por Adriano Camargo

Edge exige novo ciclo de crédito para provedores

Edge exige novo ciclo de crédito para provedores
Edge exige novo ciclo de crédito para provedores

Painel da Futurecom aponta 4,2 mil PoPs aptos à computação de borda, mas expansão depende de capital e modernização.

O Brasil dispõe de uma rede capilarizada de provedores, demanda por aplicações de baixa latência e projetos industriais capazes de impulsionar a computação de borda. A transformação desse potencial em novos data centers, no entanto, exigirá fontes de financiamento adequadas a empresas que já ampliaram seu endividamento durante a expansão da fibra óptica.

O tema foi discutido nesta quarta-feira, dia 7, no painel “Edge Computing: Inteligência descentralizada para decisões em tempo real”, durante a Futurecom 2026. Participaram Lennon Bento, da Vale; Flávio Lang, publisher do Tele.Síntese; Rodrigo Schuch, presidente da Associação NEO; Carlyle Garcia, CRO e CMO da FiberHome para o Mercosul; e Cassio Ricardo Lehmann, CRO da Eletronet.

Provedores podem converter PoPs em data centers

Schuch afirmou que provedores e operadoras mantêm cerca de 100 mil pontos de presença no país. Levantamento da Associação NEO identificou 4.280 PoPs com condições para serem modernizados e convertidos em estruturas de edge computing.

“A gente fez um estudo mais criterioso e chegamos à conclusão de que o Brasil tem potencial, por meio desses 100 mil PoPs, de absorver 4.280 PoPs e transformá-los em edge”, disse.

O estudo considerou instalações no térreo, com múltiplas rotas de fibra, alimentação redundante de energia, refrigeração e sistemas de segurança. Os espaços selecionados têm entre 25 m² e 100 m². A estimativa é de que a modernização das estruturas demande R$ 2,14 bilhões.

Segundo Schuch, esses locais já concentram equipamentos e interconexões usados na prestação de banda larga. O próximo passo seria adaptá-los para receber cargas de processamento de outras empresas.

“Hoje, o provedor sozinho já é consumidor daquele data center. Ele já necessita dele e já faz aquilo para atender a própria operação. A questão é por que ele ainda não vende essa capacidade para outra empresa”, afirmou.

Executivos durante o painel (Imagem: Tele.Síntese)

Crédito precisa acompanhar o novo mercado

Lang avaliou que a expansão do edge demandará um ciclo financeiro diferente daquele que sustentou a construção das redes de fibra. Segundo ele, uma pesquisa conduzida para o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com a participação de provedores, associações, bancos e organismos multilaterais, identificou dificuldades para financiar os novos projetos.

“Data center é um jogo disruptivo que vai demandar um novo ciclo de investimento”, afirmou. “A grande dificuldade é que eles não têm balanço para essa nova onda de investimento.”

O problema, segundo Lang, está na distância entre o histórico financeiro analisado pelos credores e as receitas esperadas com serviços de edge, inteligência artificial e processamento destinado a empresas e órgãos públicos.

“Quando você olha para trás, era um provedor. Agora, ele vai fazer edge para atender governo e toda essa nova demanda, mas essa demanda não está no balanço. De onde virão as linhas de crédito para financiar esse crescimento?”, questionou.

Lang também mencionou a necessidade de atualizar ambientes públicos de processamento. Estruturas projetadas como salas-cofre ou para equipamentos de menor densidade precisam de reforços em energia, refrigeração e segurança para suportar servidores destinados a cargas de IA.

Vale mostra demanda industrial por baixa latência

Na ponta da demanda, Lennon Bento levou ao painel a perspectiva da indústria. A Vale utiliza redes privativas, sensores, visão computacional e sistemas de automação em minas, ferrovias, portos e unidades de beneficiamento.

A mineradora mantém aplicações de teleoperação e equipamentos autônomos em áreas remotas, nas quais o tempo de resposta e a disponibilidade da conexão são requisitos operacionais. Os dados coletados por sensores também apoiam o monitoramento de máquinas e a manutenção preditiva.

Essas aplicações dependem do processamento próximo aos equipamentos para reduzir o tempo de resposta e preservar a continuidade das operações. Outras cargas permanecem em ambientes centralizados, formando uma arquitetura híbrida entre infraestrutura local, edge e nuvem.

Fabricantes e redes completam a cadeia

Na camada de fornecimento, a FiberHome, representada por Carlyle Garcia, atua em redes ópticas, IoT, 5G e infraestrutura para data centers. A instalação de capacidade computacional distribuída demanda a integração de conectividade, armazenamento, alimentação elétrica, refrigeração e ferramentas de gerenciamento.

A Eletronet, representada por Cassio Ricardo Lehmann, informou possuir 170 edge data centers e prevê alcançar 255 unidades até o fim de 2026. A companhia também planeja ampliar sua rede óptica de 18 mil para 26 mil quilômetros, com presença em 23 estados.

Neste ano, a empresa lançou uma oferta que permite aos provedores contratar e revender espaços em data centers a partir de uma unidade de rack. O modelo reduz o desembolso inicial necessário para que ISPs acrescentem serviços de infraestrutura ao portfólio corporativo.

Lehmann relacionou a expansão da rede à distribuição das aplicações. “Estamos criando uma conexão mais direta entre dois mercados relevantes e levando para essa rota um atributo essencial para aplicações cada vez mais distribuídas e intensivas em dados, que é a baixa latência”, afirmou.

O avanço do edge passa, portanto, pela modernização dos PoPs, pela oferta de equipamentos, pela disponibilidade de redes de alta capacidade e pelo acesso a capital. Segundo Lang, o desafio é estruturar linhas de crédito que considerem um mercado futuro cuja receita ainda não aparece no histórico financeiro analisado pelos credores.

Tags# edge computing# Flavio Lang# Neo# Rodrigo Schuch
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