Edge exige novo ciclo de crédito para provedores

Adriano Camargo- 7 de outubro de 2026 | 13:34
Painel da Futurecom aponta 4,2 mil PoPs aptos à computação de borda, mas expansão depende de capital e modernização.

O Brasil dispõe de uma rede capilarizada de provedores, demanda por aplicações de baixa latência e projetos industriais capazes de impulsionar a computação de borda. A transformação desse potencial em novos data centers, no entanto, exigirá fontes de financiamento adequadas a empresas que já ampliaram seu endividamento durante a expansão da fibra óptica.
O tema foi discutido nesta quarta-feira, dia 7, no painel “Edge Computing: Inteligência descentralizada para decisões em tempo real”, durante a Futurecom 2026. Participaram Lennon Bento, da Vale; Flávio Lang, publisher do Tele.Síntese; Rodrigo Schuch, presidente da Associação NEO; Carlyle Garcia, CRO e CMO da FiberHome para o Mercosul; e Cassio Ricardo Lehmann, CRO da Eletronet.
Provedores podem converter PoPs em data centers
Schuch afirmou que provedores e operadoras mantêm cerca de 100 mil pontos de presença no país. Levantamento da Associação NEO identificou 4.280 PoPs com condições para serem modernizados e convertidos em estruturas de edge computing.
“A gente fez um estudo mais criterioso e chegamos à conclusão de que o Brasil tem potencial, por meio desses 100 mil PoPs, de absorver 4.280 PoPs e transformá-los em edge”, disse.
O estudo considerou instalações no térreo, com múltiplas rotas de fibra, alimentação redundante de energia, refrigeração e sistemas de segurança. Os espaços selecionados têm entre 25 m² e 100 m². A estimativa é de que a modernização das estruturas demande R$ 2,14 bilhões.
Segundo Schuch, esses locais já concentram equipamentos e interconexões usados na prestação de banda larga. O próximo passo seria adaptá-los para receber cargas de processamento de outras empresas.
“Hoje, o provedor sozinho já é consumidor daquele data center. Ele já necessita dele e já faz aquilo para atender a própria operação. A questão é por que ele ainda não vende essa capacidade para outra empresa”, afirmou.

Crédito precisa acompanhar o novo mercado
Lang avaliou que a expansão do edge demandará um ciclo financeiro diferente daquele que sustentou a construção das redes de fibra. Segundo ele, uma pesquisa conduzida para o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com a participação de provedores, associações, bancos e organismos multilaterais, identificou dificuldades para financiar os novos projetos.
“Data center é um jogo disruptivo que vai demandar um novo ciclo de investimento”, afirmou. “A grande dificuldade é que eles não têm balanço para essa nova onda de investimento.”
O problema, segundo Lang, está na distância entre o histórico financeiro analisado pelos credores e as receitas esperadas com serviços de edge, inteligência artificial e processamento destinado a empresas e órgãos públicos.
“Quando você olha para trás, era um provedor. Agora, ele vai fazer edge para atender governo e toda essa nova demanda, mas essa demanda não está no balanço. De onde virão as linhas de crédito para financiar esse crescimento?”, questionou.
Lang também mencionou a necessidade de atualizar ambientes públicos de processamento. Estruturas projetadas como salas-cofre ou para equipamentos de menor densidade precisam de reforços em energia, refrigeração e segurança para suportar servidores destinados a cargas de IA.
Vale mostra demanda industrial por baixa latência
Na ponta da demanda, Lennon Bento levou ao painel a perspectiva da indústria. A Vale utiliza redes privativas, sensores, visão computacional e sistemas de automação em minas, ferrovias, portos e unidades de beneficiamento.
A mineradora mantém aplicações de teleoperação e equipamentos autônomos em áreas remotas, nas quais o tempo de resposta e a disponibilidade da conexão são requisitos operacionais. Os dados coletados por sensores também apoiam o monitoramento de máquinas e a manutenção preditiva.
Essas aplicações dependem do processamento próximo aos equipamentos para reduzir o tempo de resposta e preservar a continuidade das operações. Outras cargas permanecem em ambientes centralizados, formando uma arquitetura híbrida entre infraestrutura local, edge e nuvem.
Fabricantes e redes completam a cadeia
Na camada de fornecimento, a FiberHome, representada por Carlyle Garcia, atua em redes ópticas, IoT, 5G e infraestrutura para data centers. A instalação de capacidade computacional distribuída demanda a integração de conectividade, armazenamento, alimentação elétrica, refrigeração e ferramentas de gerenciamento.
A Eletronet, representada por Cassio Ricardo Lehmann, informou possuir 170 edge data centers e prevê alcançar 255 unidades até o fim de 2026. A companhia também planeja ampliar sua rede óptica de 18 mil para 26 mil quilômetros, com presença em 23 estados.
Neste ano, a empresa lançou uma oferta que permite aos provedores contratar e revender espaços em data centers a partir de uma unidade de rack. O modelo reduz o desembolso inicial necessário para que ISPs acrescentem serviços de infraestrutura ao portfólio corporativo.
Lehmann relacionou a expansão da rede à distribuição das aplicações. “Estamos criando uma conexão mais direta entre dois mercados relevantes e levando para essa rota um atributo essencial para aplicações cada vez mais distribuídas e intensivas em dados, que é a baixa latência”, afirmou.
O avanço do edge passa, portanto, pela modernização dos PoPs, pela oferta de equipamentos, pela disponibilidade de redes de alta capacidade e pelo acesso a capital. Segundo Lang, o desafio é estruturar linhas de crédito que considerem um mercado futuro cuja receita ainda não aparece no histórico financeiro analisado pelos credores.
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