De volta ao básico: Giga+ reestrutura negócio e volta às origens

Rafael Bucco
- 13 de outubro de 2026 | 15:24
Após rever gestão, vendas e atendimento, antiga Alloha busca proximidade com clientes e prepara expansão no B2B e no móvel.
A Giga+, antiga Alloha Fibra, quer recuperar a proximidade com os clientes dos provedores regionais que deram origem à companhia. A unificação das marcas institucional e comercial vem após um ano de mudanças na gestão, na política de vendas, na manutenção da rede e no financiamento do negócio. Agora, a empresa estuda entrar na telefonia móvel como operadora virtual e ampliar a atuação no mercado empresarial.
Em entrevista à TV Síntese, Roger Solé, CEO da companhia, afirma que a mudança de marca sucede um trabalho interno para corrigir problemas acumulados durante a integração dos provedores adquiridos. Segundo ele, a consolidação de sistemas, redes e estruturas societárias avançou, mas a empresa perdeu parte do foco no consumidor.
“Precisamos arrumar a casa”, afirma. A intenção, explica, era assegurar que o atendimento e a capacidade de resolver problemas correspondessem ao posicionamento que a empresa passaria a comunicar.
Com quase 1,3 milhão de clientes, incluindo varejo e linhas empresariais, a Giga+ reúne 150 mil quilômetros de fibra óptica e uma rede que passa por 8,3 milhões de domicílios. Ao assumir a gestão, em setembro de 2025, Solé encontrou baixa ocupação dessa infraestrutura, perda de clientes e consumo de caixa, conforme relata.
Mudança começou pela cultura
O plano, chamado internamente de “básico bem feito”, começou por alterações nas lideranças e na cultura da organização. Na avaliação do executivo, a centralização havia deixado a companhia engessada, com pouca rapidez e falta de clareza sobre as responsabilidades operacionais.
A revisão buscou recuperar características dos provedores locais: presença próxima ao consumidor, agilidade no atendimento e responsabilidade pela prestação do serviço. Também alcançou as áreas comercial, financeira, de engenharia e de manutenção.
A adoção de Giga+ como marca única encerra a separação entre a identidade institucional Alloha Fibra e a marca utilizada com os consumidores. Segundo Solé, essa duplicidade gerava confusão, inclusive no segmento corporativo.
A assinatura “Mais qualidade por perto” procura traduzir a orientação adotada. O executivo ressalta, porém, que os efeitos sobre satisfação e cancelamentos dependem da operação. “O que de fato reduz o churn e melhora a satisfação é tudo o que fizemos por baixo”, afirma.
Menos vendas e revisão dos canais
Uma das mudanças foi reduzir a entrada de clientes que cancelavam rapidamente ou não pagavam sequer a primeira fatura. Segundo Solé, em algumas regiões, o cancelamento precoce chegava a 30%–40%.
O diagnóstico incluía fraudes de clientes e de canais comerciais, problemas de comissionamento e contratação sem retorno sobre o custo de instalação e equipamentos. A resposta envolveu identificação facial em todas as vendas, revisão da análise de crédito, substituição de parceiros e mudanças na remuneração dos canais.
As novas vendas caíram pela metade, mas, segundo o executivo, houve redução da inadimplência na primeira fatura e dos cancelamentos. O tíquete médio aumentou mais de R$ 6, movimento que ele atribui, em parte, à contratação de produtos de maior valor.
Na oferta residencial, a companhia passou a concentrar as vendas em planos a partir de 600 Mbps, com Wi-Fi 6, e está lançando redes mesh para melhorar a cobertura dentro dos imóveis.
Equipes próprias e reforço da rede
A reestruturação também ampliou o uso de mão de obra própria nos reparos. Solé afirma que a internalização buscou melhorar o cuidado com a infraestrutura e incentivar intervenções preventivas.
A gestão passou a acompanhar indicadores como o percentual de reparos realizados em até 24 horas, a repetição de chamados e o tempo necessário para corrigir falhas. No backbone, a empresa reforçou a redundância principalmente por meio de trocas e aluguel de fibras.
Segundo o executivo, essas medidas ajudaram a reduzir ocorrências. A companhia também trabalha na identificação e correção de problemas na rede externa que comprometem a qualidade da conexão.
Na frente financeira, uma emissão internacional de US$ 350 milhões permitiu substituir parte das dívidas locais e alongar vencimentos. Solé afirma que a empresa passou a gerar caixa após o pagamento dos juros, mas precisava equacionar as amortizações de principal previstas para o início de 2027. Se no terceiro trimestre de 2025 a empresa queimava R$ 198,6 milhões do caixa, no segundo trimestre deste ano, gerou caixa de R$ 114,5 milhões, e a margem EBITDA passou de 44,6% para 54,4%. Nas contas, significa uma alta de R$ 313 milhões em caixa.
Entrada no móvel está em estudo
A telefonia móvel está entre os próximos movimentos considerados pela Giga+. A empresa analisa o lançamento de uma operadora móvel virtual, ou MVNO, para complementar sua oferta de serviços.
Solé descarta, nos planos atuais, a aquisição de frequências. “Nós não estamos olhando para compra de espectro”, afirma. A entrada seria feita com infraestrutura de outra operadora, sem uma rede móvel própria.
O executivo não apresentou data de lançamento nem informou um parceiro. Segundo ele, a companhia ainda avalia como e quando implementar a operação.
B2B, pequenos negócios e condomínios
No mercado empresarial, a Giga+ vê espaço para ampliar a participação do segmento na receita. Hoje, o B2B responde por aproximadamente 15% do faturamento, percentual que Solé considera possível dobrar, sem estabelecer prazo.
Embora esteja presente em 310 cidades no varejo, a companhia tem capacidade de atender empresas em quase 800 municípios por meio de sua rede. A expansão envolve clientes corporativos, governo e atacado, além de serviços de nuvem e segurança.
Como exemplo, Solé cita um projeto que integra conectividade e segurança para agências e postos de crédito do Banco do Nordeste. A empresa também está se organizando para ampliar a atuação entre pequenos negócios e condomínios.
Outra frente é usar dados e inteligência artificial para direcionar a aquisição de clientes nas cidades onde já opera, identificando ruas e domicílios de interesse comercial.
Novas aquisições de provedores permanecem no radar, mas não são prioridade. Depois de concentrar esforços na operação, a Giga+ poderá avaliar negócios com sinergias e complementaridade, segundo Solé. O foco declarado continua sendo fortalecer a empresa e aproveitar a infraestrutura que já possui.
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